[Poesia] Corvos

Ainda lembro quando senti a primeira dor.

Achei que fosse passageira, esperei a noite ir embora e o nascer do sol me fazer de novo feliz.

Não aconteceu,

o sol brilhava mas meus órgãos doíam,

reclamavam do esforço do dia a dia.

A brisa suave não me trouxe a paz que esperava.

Fui enganado pelos livros de autoajuda.

Não consegui jogar o jogo do contente,

desejei a morte,

sonhei que minhas partículas cremadas eram soltas na praia

e finalmente me senti livre.

Voei por sobre as ondas, não havia gaivotas

e sim corvos que tentaram me bicar.

Ri,

um riso demoníaco,

por finalmente ter vencido.

Eles não podiam machucar meu corpo,

jamais comeriam minha carne.

 

 

Sobre a autora da poesia:

Rozz Messias é professora, contista e poeta. Nasceu em uma pequena cidade no interior do Paraná, teve uma infância feliz e uma adolescência introspectiva. Desde os quinze anos escreve poesia e cria histórias em sua mente, mas foi somente em 2018 que começou a participar de antologias. Em 2019, publicou o romance contemporâneo “Ao seu encontro” e a fantasia “Entrelaçados”. Acredita no sobrenatural, vê além do físico, tem sonhos significativos, já sofreu de depressão, é inconformada com as injustiças desse mundo e embora pareça calma, sua mente é agitada o tempo todo. Conseguiu encontrar-se na escrita de suspense, terror e poesia gótica, tendo diversos contos sobre morte e possessões. Sua poesia fala de dor, angústia, decepção e seres sobrenaturais.

 

 

Ode ao Inverno

Canto I
FRIEZA SOMBRIA
*
Oh, Inverno! Pungente e gélido Inverno!
Venha salvar-me deste medíocre inferno!
Traga vossas nuvens cinzentas e céu sombrio
Ouça meu chamado,
envolve-me com teu vento frio
Oh, impávido Inverno! Toma-me!
Que o calor do sol nunca te dome!
*
Teu gelado toque em minha pele,
traz-me arrepios
Por que faz-me esperar-te tanto?
Eu lhe evoco ao seguinte desafio…
Traga contigo as baixas temperaturas
e da neve a brancura
Faz o sangue me gelar nas veias
sem pudores ou candura
*
Aconchegante sensação das noites invernais
Traz o gelo criado pela beleza única de teus fractais
Toma meu corpo quente em teu frio terrível e consolador
Pois pior é o gelo no coração dos homens onde já não há amor
*
Elegante e verdadeira se faz vossa frieza
Toma-me o calor e a vida com sutileza
Gélida e soturna, tal qual tua própria natureza
Eternamente a espalhar terror e leveza
*
Venha com teu poderoso frio me acalentar
Beijar friamente minha cálida pele até arrepiar
E consumir-me por inteiro friamente, até me matar
Eis-me aqui querido Inverno…ávida, à vos esperar
Canto II
FRIA INSPIRAÇÃO
*
Inverno me deu potência
Acredito nisto de coração
Afirmo isto com eloquência
De quem sente certa exaustão
Do que é viver da resistência
Eis minha forte inspiração
*
Inverno me faça fria e vibrante
Ou se não, um dia à de fazer…
Sou criatura talvez errante
Amando e odiando a arte do querer
Lidando de modo vacilante
Com a ingrata aventura de viver
*
Aprendendo arduamente a cada dia
Na marcha cotidiana do meu ser
A arte de ser astuta, dura e fria
Para conseguir bem sobreviver
Inverno e sua intensidade me guia
Me salvando de ensandecer
*FERNANDA MIRANDA*

[CONTOS] Amor Vampiro

[créditos ao próprio autor pela imagem]
Em um baile à fantasia, Sophia conhece Ronan que de forma elegante a convida para uma dança. Ambos trajavam roupas de época, seguindo o tema medieval da festa. Galanteador, Ronan logo a corteja afirmando ser um vampiro. Ela se encanta por suas histórias e cordialidades, despertando em si um arrebatador interesse que a deixa entorpecida por suas palavras e gestos, e logo aquela jovem gótica se vê perdidamente apaixonada por aquele rapaz misterioso de sorriso encantador. Após a festa, Ronan como um bom cavalheiro, acompanhou Sophia até a porta de sua casa e se despediu reverenciando-a com um beijo em sua mão, mas de forma ousada ela o puxa pelo fraque e lhe beija a boca, sussurrando em seu ouvido um convite para entrar.

Naquela noite, eles se amaram perdidamente e em meio a seus prazeres conjugais, Sophia sente Ronan abocanhar a parte interna de sua coxa, mordendo-lhe e bebendo seu sangue, e vendo que aquilo o excitava e também lhe convinha ser prazeroso, ela permitiu tal ato, tendo em vista alimentar sua fantasia. Ao amanhecer, Sophia desperta sem a presença de Ronan e passa o resto do dia (em meio seus afazeres) pensando naquela majestosa noite, imaginando se ainda o veria e no começo da noite, ela ouve batidas em sua porta e ao abrir se depara com seu “príncipe encantado.” Ela almejava revê-lo e uma vez perante seus olhos, estava disposta a provar que o destino não havia lhe confrontado por acaso. E ele havia retornado na esperança de obter um pouco mais do que lhe foi atribuído.

E a partir daquele dia, eles mantiveram um relacionamento estranho e mórbido, onde quase todas as noites ele mordia uma parte do corpo dela e drenava um pouco do seu sangue para beber. Ela se sentia satisfeita em concedê-lo, acreditando agradar seu fetiche gótico de ser um imortal. No entanto, com o passar do tempo, aquelas doses quase que diárias de extração de sangue, estavam deixando Sophia apática e moribunda, sua família já havia percebido tal mudança em seu aspecto, mas ela omitia o fato para não comprometer o seu namorado. Além disso, ele afirmava trabalhar durante o dia e sempre saia muito cedo de casa, antes mesmo do amanhecer e só retornava ao cair da noite. O fato de retornar com dinheiro era o que mantinha sua credibilidade em meio as desconfianças de Sophia. Ele cobria as despesas da casa e proporcionava um luxo que ela jamais sonhou, mas fazia questão que ela continuasse trabalhando no laboratório de análises clínicas.

Suas noites se tornaram rotineiras, e após seus afagos, exausta, ela ia dormir, enquanto ele passava a maior parte do tempo, sentado em uma antiga escrivaninha, escrevendo memórias em seu pequeno caderno, outrora passava suas noites de forma decadente, tocando canções tristes em um velho piano, pensativo, talvez se lamentando pelos erros cometidos em seu obscuro e vasto passado. Aos domingos, seu dito dia de folga, sobre o pretexto de estar cansado, ele fazia questão de ficar em casa na companhia de sua amada, alegando querer assistir filmes ou passar o dia deitado ao lado dela. Nas noites entediantes, saiam para baladas ou encontros com amigos. Ela estava acostumada a conhecer pessoas esquisitas, mas achava extremamente estranhos aqueles amigos que Ronan lhe apresentava, eles estavam sempre desconfiados e lhe olhava com desejo.

Sempre que possível, Sophia trazia uma bolsa de sangue do laboratório que trabalhava para Ronan, a fim de lhe poupar energias e preservar sua saúde, e quanto mais cedia aos seus exóticos desejos, se sentia com mais direito do que tudo sobre o que vinha cativando, e muitas vezes ficava impressionada com a forma que ele levava a sério esta história de ser um vampiro, que além de sua auto afirmação e apesar de nunca ter lhe visto dormindo durante a noite devido a sua insônia, ou comer e beber algo além de sangue, ela não via outros poderes nele, que desse sentido a sua paranoia. E aquilo começou a mexer com seu senso de responsabilidade, questionando se depois de 7 meses, já não seria hora de levar a sério o relacionamento, casando e tendo filhos ao invés de seguir com esta vida de algazarras.

Sophia também estava sendo pressionada por seus familiares que queriam conhecer seu namorado, mas Ronan estava sempre dando desculpas para evitar tal encontro. Apesar dos polivitamínicos que tomava, Sophia quase sempre se sentia indisposta em seu trabalho com mal estar. Seus exames alegaram uma anemia profunda e foi afastada do serviço temporariamente por recomendação médica. Por precaução, Ronan evitou usufruir de seu sangue, pois seu estado era crítico e visivelmente anoréxico, seu corpo estava repleto de marcas de mordidas nas partes que normalmente eram cobertas pela roupa. Neste período, ele costumava chegar mais tarde em casa e sair mais cedo para o trabalho. Sophia se recuperou rapidamente em um prazo de 2 semanas, mas ultimamente havia notado certa indiferença em Ronan, e aquilo a deixou inquieta.

As desavenças eram constantes, qualquer coisa era pretexto para iniciar uma discussão, ela podia sentir a frieza de seu companheiro, estava se sentindo sozinha mesmo ao lado dele, e quando Ronan passou a pernoitar fora de casa, ela lhe fez ameaças que só agravaram seu relacionamento, mas com um pouco de paciência eles reataram os laços excêntricos que mantinham e voltaram a ser o casal profano que costumavam ser.

Certo dia, Ronan saiu de casa mais cedo do que o habitual, então Sophia resolveu segui-lo e viu quando se aproximou de 2 mulheres e depois entrou em uma rua estreita. Ela se apressou, mas ao chegar à esquina, ele já havia sumido. Seu ciúme doentio fez com que ela tramasse uma vingança, e para tal feito até faltou no serviço.

Na noite que se aproximou ela iniciou uma prolongada discussão. Ele afirmou com requinte de crueldade que enxergava aquela estranha na rua de forma diferenciada, como se fosse uma bolsa de sangue, mas Sophia insistia em discutir gerando um conflito maior entre os dois. Continuaram debatendo enquanto as horas se passam, e após ele decretar a separação, ela tira do seu bolso uma seringa contendo um forte anestésico e ejeta o medicamento paralisante nele, deixando seu corpo totalmente imóvel, no entanto consciente.

Ela continuava esbravejando e ao perceber que estava amanhecendo, abriu as cortinas e continuou reclamando, falando de forma distraída, gesticulando e andando pelo quarto sem perceber que o sol penetrava pela janela ofuscando sobre a pele dele, que por sua vez começou a esfumaçar, lhe causando uma enorme dor que lhe penetrava profundamente até infringir sua alma, mas ele estava inerte e nada podia fazer para evitar tamanho sofrimento, e ela continuava olhando para o alto enquanto o corpo dele começava a escurecer e em seguida queimar com as chamas se propagando rapidamente, e só quando ela viu a claridade através da parede, se virou e correu para fechar as cortinas, mas já era tarde demais. Em lágrimas, vendo aquele corpo carbonizado. Ela descobriu da pior forma que ele realmente era um vampiro.

 

Sobre o autor: James Gallagher Junior

Nas horas vagas atua como escritor, compositor e desenvolvedor de jogos. Na literatura, se dedica a escrever romance, suspense, terror e ficção científica. É organizador de antologias e contista em várias editoras. Atualmente reside na cidade do Recife e é membro vitalício da academia independente de letras de Pernambuco. Alguns dos seus trabalhos literários podem ser encontrados nos sites Recanto das Letras e Wattpad. Contato através do email: alendaviva1607@hotmail.com

[Poesia] Caos

Posto este poema porque me identifico com ele e com sua autora, e o dedico à todas as almas que estejam lidando com O CAOS, seja o Caos do mundo ou nosso Caos Interior… Que ele seja apenas etapa necessária para nos ajudar a crescer e brotar da Terra renovadas, tal qual semente sepultada descrita na poesia…

Sou a raiz
Que cresce no escuro,
A semente sepultada
Que germina e dá flor.

Sou o lótus
Que cresce na lama.
Bruxa, xamã,
Filha do caos
E da Terra.

 

Texto de @indy.poetisa
Vídeo de @kaduhammett

 

Sobre a autora da poesia:

Indy Sales é uma escritora de Ouro Preto, MG, nascida em 1993. Começou a escrever poemas aos 10 anos e nunca mais parou. Embora se dedique a temas sombrios e ultrarromânticos, não se limita, e gosta de percorrer diversas temáticas na literatura. É acadêmica de Letras, apaixonada por artes e fotografia.

 

Sobre o editor do vídeo:

Kadu Hammett, é formado em Publicidade. Começou a se aventurar como escritor, pelo amor a literatura e logo estava produzindo material próprio. Tendo escrito contos de gêneros diversos e várias poesias, participa das antologias: Eu, Monstro!, com o conto “Gosto de Sangue”, Soturnos Volume 4, com o poema “Talvez Você Mereça” e Nightmare 2, com “Despedaçar Amor”. Participa também, de diversas antologias poéticas e está em produção de seu primeiro livro, sendo este, um romance pessimista.

 

 

[CONTOS] O Fogo Furta-Cor

[créditos à respectiva artista pela imagem]

Berenice estava andando pela floresta. Apesar de não gostar de fugir da escola, ela sabia que era importante. Berenice era uma bruxa, daquelas que sofrem bullyng por ser “wiccquinha nutella”. Ela só ignorava a maioria dos comentários dentro da escola e da família, até porquê a espiritualidade dela era dela e de mais ninguém, e o carma cobrava pensamentos negativos. Embora as vezes, ela sentisse raiva da falta de respeito.

Mas aquele dia, enquanto andava pelas ruas do bairro onde morava, Berê ouviu um som que tocou sua alma. O vento lhe sussurrou segredos e ela sentiu uma energia interminável, uma corrente elétrica de alta tensão, a puxando pelo umbigo. Ela resolveu seguir aquela força, que a guiava até a mata da área verde, que ficava perto da escola.

A cada passo que dava, sentia a energia mais forte. Ela rezava por seus guias e seus deuses no caminho, mas a cada passo aquela energia a seduzia mais e mais. Ela entrou na mata e sentiu-se envolvida por aquela energia fantástica, que entrava por seus poros e corria por suas veias, como um veneno. Ela tinha certeza que nenhuma droga que seus amigos usavam dava aquela vibe. Mas no seu interior, ela sabia que tinha algo sério acontecendo. Tentando manter a mente fria, ela sabia que era impossível, com aquela energia excitante e sensual no ar.

Então, ela começou a ter visões. Ela não via com os olhos, se focava neles era impossível. Mas no canto do olho, no ponto cego da vista, ela conseguia ver. Quando ela piscava os olhos, via por instantes, os espíritos da flores, as ninfas e os gnomos, os espíritos e almas penadas, os guias e totens, todos seguiam pelo mesmo caminho que ela, seguindo a trilha na floresta.

Arfando pela tensão, ela ouviu um estrondo quando chegou a uma clareia. Vários animais, pássaros, voaram pelo céu e ela ouviu um estrondo enorme, como uma onda, que flutuou pelo ar e a atingiu com uma rajada de vento, que se tornou em um pequeno redemoinho em sua frente.

Aquela energia irresistível finalmente a possuiu, infiltrando-se por seu corpo, crescendo com suas veias e tomando sua voz, que falou, recitando com uma voz que fez sua garganta formigar, entre poder e vontade:

“Entre as esferas do poder

Do universo e do Sol

Filha da lua e das estrelas, os pontos de cor se unem em um

Feita do verbo, da vontade e do querer

O fogo furta de todos e de nenhum”

A energia fluía por ela, como se estivesse em um orgasmo. Quando ela fechava os olhos, enxergava a forma do redemoinho em cores vívidas, amarelo, laranja, vermelho e lilás. A energia fluía por ela e os pelos de sua pele negra se eriçavam, num misto de prazer, deleite e espanto.

Então, num ápice, como num orgasmo, o redemoinho estourou em chamas, numa explosão. E ela viu com seus olhos mágicos que algo se libertou, um espírito voando pelo éter, em chamas coloridas que se espalharam pelo céu como uma estrela.

Ela sentiu as mãos de seus guias nas suas costas, barrando sua queda quando suas pernas fraquejaram. Seus deuses estavam presentes, e lhe pegaram colo, cobrindo-a com uma manta de flores enquanto ela dormia. Uma armada de Exús fazia guarda para o seu sono, de forma que nem um mísero animal quanto mais um ser humano desavisado, sairia vivo se a tocasse.

E enquanto ela dormia, sua alma vagava. Caminhando pelo universo, Berenice sabia que estava em um sonho. Ela sentia um peso incrível e um movimento em suas costas, puxado pelas suas escápulas. Conforme ela respirava, suas asas abriam-se e fechavam, determinando sua estada no alto. A sensação de liberdade a tomou como uma droga, alimentando seu ego e sua libido como a fogueira de uma fornalha.

Um sopro suave do vento beijou sua face, e ela enxergou uma mulher naquele fogo que ela libertou. Aquela forma falou com ela em uma língua que ela não entendia, mas sentia o significado dentro de sua mente.

Ela agora era amiga de uma estrela. E as estrelas sempre a ajudariam, em qualquer magia. Palavras secretas de feitiços foram sussurradas em seus ouvidos, e Berenice começou a brilhar, enquanto caía em queda livre.

Num suspiro perdido no tempo, com a eletricidade correndo em seu corpo, ela acordou em um grito. Sentada em sua cama, dentro de seu quarto. Um vento suave soprou pela janela aberta, e ela viu um colar com um cristal translúcido em sua mão. Arfando, ela respirou fundo e viu que a manhã toda havia se passado. Ela estava segura, e um novo significado da magia ribombava em seu peito, batendo junto de seu sangue, que brilhava como a prata sobre o ônix.

 

Sobre a autora do texto:

Bruxa das Letras é o pseudônimo de Natália Krentz dos Santos. Residente de Estância Velha-RS, aos 23 anos ela estuda licenciatura em Ciências Biológicas e escreve por amor e resistência

[CONTOS] O Exorcismo das Bruxas

[crédito à respectiva artista desconhecida pela imagem]

A verdade está escondida, mas sempre visível a todos que desejam ver. Assim é com todas as coisas e assim sempre será. E Janice estava procurando a verdade, quando se perdeu para sempre, sem perceber que o que ela queria descobrir estava dentro, e não fora. Aos 17 anos, ela não sabia nada realmente sobre magia. Mas ela sabia que tinha raiva da sua família, e que queria ser diferente.

A porta do quarto estava trancada, e a janela estava aberta, derramando a luz do luar sobre a cena. A cama estava arrumada, assim como a escrivaninha e a cômoda. Ela podia sentir a energia maligna e pesada da sua casa, todos os dias. No seu quarto, sempre parecia pior. Então hoje, ela decidiu que iria descobrir o porquê.

O tabuleiro estava pronto. Ela montou um com papel e canetas. Os filmes chamavam aquilo de Ouija, mas ela conhecia da escola como jogo do copo.  Ela aprendeu a jogar na escola e sempre achou místico o jeito como o copo se movia sozinho e respondia as coisas. Mas jogar com seus amigos era sempre um tédio, pois eles começavam a rir e logo tudo parava. Hoje, ela decidiu que iria até o fim. Sozinha em seu tabuleiro, apenas com uma vela branca acesa, “para dar um clima”, pensou ela. Ela chamou pelos espíritos que ela sentia em sua casa, com todo seu coração.

E ao primeiro movimento do copo, ela soube que era real. Uma excitação pelo perigo percorreu o seu corpo jovem, eriçando os pelos da sua coluna. Nunca foi realmente real na escola, com seus colegas estúpidos. Mas era real, ali, para ela.

E foi tão real, que aquilo que estava no seu quarto resolveu se mostrar para ela. O barulho de um copo se estilhaçando chamou atenção da família, que fora do quarto, batia incessantemente na porta. Um grito agudo de sofrimento atraiu todo ali, e quando a porta foi arrombada, haviam cacos de vidro e sangue de uma garota no chão, manchando a janela por onde ela havia pulado e fugido de casa.

Dias se passaram. A polícia foi envolvida na busca de Janice Smidt, 17 anos. Ela foi dada como desaparecida. Seus pais faltaram ao trabalho repetidas vezes, chamados a interrogatórios na delegacia. Chamaram a igreja, e por algum motivo, o pastor não quis se envolver, pois disse se tratar de magia negra.

O desespero leva as pessoas a lugares que elas jamais esperariam. O mesmo desespero que levou Janice ao jogo, levava agora sua mãe, Alcina, evangélica convicta desde a juventude, a ligar para um anúncio de tarô que ela viu na rua.

-Alô? – ela disse, hesitante.

-Alô? Aqui é Victoria, tudo bem?

-A senhora… faz leituras? Eu vi seu anúncio –A voz de Alcina soou hesitante. A um instante de desligar o telefone, o instinto a fez manter-se na linha.

-Sim… A senhora não está bem, né? – os sentimentos na linha voavam, e Victoria sentiu o que precisava dizer.

-Eu… preciso de ajuda.

Então ela desabou. Lágrimas escorriam, de seu orgulho e fúria em desespero, ao contar porquê precisava da leitura. Quando ela terminou, Victoria disse que iria lá hoje mesmo.

Dona Alcina morava num bairro pobre e distante do centro. O lugar era mal afamado, com as ruas sujas e as casas empobrecidas. Dona Alcina morava numa casinha pequena, pintada de azul com as janelas brancas. Dona Alcina, apesar do nome, era uma mulher jovem. Recém tinha feito quarenta. Seu marido estava no bar, então estavam as duas sozinhas em casa. Para Victoria, Alcina parecia uma mulher maltratada pela vida e pelas escolhas.

Assim que entrou na casa, nuvens cobriram o sol, que brilhava alto no céu. Um vento frio brincava nas janelas, correndo entre as portas como se para provocar quem estivesse em casa. O desconforto era evidente por parte das duas.

Victoria tirou as cartas, e a cada carta o rosto dela se modificava, tornando-se mais e mais sombrio.  Elas haviam combinado apenas 3 cartas no telefone, mas Alcina assombrou-se vendo-a tirar repetidas leituras, e meditar sobre elas, antes de finalmente dizer:

-Dona Alcina…que tipo de lugares frequentava sua filha?

-A Janice sempre foi uma menina normal, bonita… Ela ia na Igreja, ia na escola, sempre obriguei ela a ser temente a Deus, ela ia lá com os grupo de jovens, cantava no culto…

-Senhora… alguém fez muito mal para sua filha. Está vendo aqui essa carta…Ela diz que ela fez algo de ruim para ela mesma, nesse contexto.

-E onde que ela tá agora? – Ela respondeu, quase um grito. A janela bateu com força, e as duas levantaram num susto.

-Senhora… tem alguma coisa nessa casa. – disse Victoria, de repente.

-Como assim? Como um demônio? O diabo?!

-Senhora, não existe diabo. Mas existem espíritos ruins, sim. E eu acho, pelo que a senhora disse, que a sua filha foi possuída por um deles. Essa carta aqui, mostra que tem um carma, uma força atuando nessa casa, e eu consigo sentir… A senhora não consegue?

-Consigo sim, moça. – ela disse, suspirando. – Mas onde a minha filha tá?

-Segundo as cartas, está bem perto daqui. Num lugar que para ela era especial.

Victoria defumou a casa com ervas e fez runas de proteção nas portas. As janelas bateram com força várias vezes, e as duas puderam sentir alguma coisa resistindo ao fogo da bruxa, que no final, foi mais forte. As janelas da casa bateram juntas uma última vez, e o fogo do caldeirão se apagou sozinho, quando elas sentiram aquele vento fugir pela porta da frente.

-O que foi isso, minha filha? – perguntou dona Alcina, visivelmente abalada.

-Seja lá qual foi o espírito que estava aqui, foi embora senhora.

-Mas porquê que tinha espírito aqui?!

-Eles se alimentam da energia das pessoas… a senhora briga muito, não é? Tem muito ódio?

Visivelmente constrangida, ela respondeu que ela não, mas admitiu brigar muito com o marido. E com as vizinhas, e que sentia muito olho gordo de todos em volta. Então Victoria explicou, que essas energias ruins ficam grudadas nas paredes, nos locais, e se tornam alimento para espíritos que não querem seguir.

A noite já chegava, deixando o ar da noite fresco. O marido de dona Alcina era vigilante, só chegaria ao amanhecer. Victoria já estava se despedindo, quando a campainha tocou. Elas foram até o portão, e para o horror de dona Alcina, Janice apareceu.

Ela estava com as roupas rasgadas, e com arranhões que lhe rasgavam o corpo todo. Seus cabelos estavam despenteados, e seus olhos vazios. Elas correram até o portão, quando Janice desmaiou. Simplesmente caiu, como uma jaca podre, no chão. Dona Alcina foi até ela em desespero e Victoria a arrastou para dentro de casa.

Ela foi amarrada, na cabeceira de sua cama. Cinco velas brancas foram acesas num pentagrama luminoso em volta dela. Todos os espelhos foram cobertos, e Victoria pediu que dona Alcina se afastasse dessa vez. Ela fez uma pasta com arruda, sálvia, sal grosso e carvão. A noite avançava e uma lua crescente brilhava nos céus, iluminando a cena com sua luz prateada.

Victoria rezou, aos deuses antigos que ela cultuava. Ela fez runas de proteção em si mesma, e vestiu um colar com uma turmalina negra, protegendo-se. Quando ela começou a entoar os cânticos aos deuses antigos, Janice acordou. Revirando-se na cama, ela urrava, enquanto Victoria calmamente, untava seus chacras com a pasta de sal grosso.

Victoria começou a entoar os cantos com mais força, mais vontade. Acendeu uma fogueira no centro do quarto, onde pôs para queimar os restos da pasta de sal. O fogo cresceu mais do que seria considerado normal em qualquer lugar do mundo, e as velas ardiam como lanças de fogo de luz, até que o espírito deu-se por vencido.

Um sopro saiu do peito de Janice e as janelas fecharam-se numa batida estrondosa, que apagou as velas. A s chamas do caldeirão queimavam em uma espiral do tamanho de um homem, quando Janice acordou, sem se lembrar do ocorrido.

O fogo morreu devagar, deixando uma marca de queimado no chão de madeira. Janice voltou ao normal e seus arranhões sumiram com um tempo. Ela voltou a escola, as coisas se resolveram na polícia.  As marcas que ficaram sumiriam aos poucos, da vida de todos.  Mas as memórias de dona Alcina ficariam marcadas eternamente, do dia que ela descobriu, que as bruxas também podem curar.

 

Sobre a autora do texto:

Bruxa das Letras é o pseudônimo de Natália Krentz dos Santos. Residente de Estância Velha-RS, aos 23 anos ela estuda licenciatura em Ciências Biológicas e escreve por amor e resistência

[POESIA] Putrefato Coração

Dedico esta poesia, singela e sombria, para todas as pessoas  que estão decepcionadas com esta sociedade, cada vez mais absurda e desalmada em mentiras enterrada; e frustradas com aqueles que no dia a dia, fazem da realidade esta imensa e patética DISTOPIA!
(imagem de autoria desconhecida)
Putrefato Coração

 

Romantizo a morte
para suportar a vida
Obliterar minha sorte
Minha maldita ferida

 

Carrego uma maldição
Um coração em necrose
Vã e mortífera paixão
Veneno, nefasta dose

 

Ah, coração moribundo
Decadência dos fatos
Inocente sonho soturno
Sentimento putrefato

 

A corroer aos poucos
Como vermes no caixão
Torna-o podre e oco…
Apodrecido coração

 

Esperança moribunda
 Sintonia é maldição…
Melancolia profunda
Um putrefato coração

 

>>>>>>>>>>>>>>>>>>> Quer ver tua poesia ou conto no blog?
Envie para goticmetal@gmail.com ou alexielvibeke@gmail.com
com uma minibiografia de cerca de sete linhas…
O texto irá para avaliação e poderá estar (ou não) numa próxima postagem.
Os textos devem ser anexados em arquivo .doc, .docx ou .pdf

Uma imagem vale…

 

…Mais que mil palavras… É como se diz popularmente.

Se baseando nisto, apesar de a maioria destas imagens datarem desde o ano de 2018, acho que elas representam muito bem os sentimentos e situações que muitos de nós temos vivenciado. Então resolvi trazer esta bela amostra de que palavras não são a única forma capaz de expressar tão bem as emoções humanas… Até porque, muitas vezes o que elas expressam é mentira ou apenas ilusão, e no cotidiano costumam nos faltar palavras diante de reais sentimentos.

Exatamente por isto este artista japonês que se apresenta no Twitter apenas como “avogado6” encantou um público tão considerável com o seu trabalho…Ele parecia dedicar seu perfil de Twitter à divulgação de suas obras, que envolvem desenhos que buscam transmitir em forma de arte uma série de sentimentos comuns a muitos de nós. Hoje tem algumas tiras em estilo “mangá” também, mas o foco continua sendo um simbolismo que retrata emoções.

Então venho compartilhar porque me encantei diante deste artista antes, e hoje lembrei das imagens dele por estar de fato sentindo o que muitas delas refletem. Me senti representada quando ele expressa certos sentimentos difíceis de definir com palavras. Uma vez que é difícil não se identificar com nenhuma das imagens. Ao longo da matéria algumas não terão legendas, exatamente por serem de difícil expressão mesmo, porém de imensa beleza e intensa sensibilidade, coisa cada vez mais rara hoje em dia…

Algumas são recentes, pois fiz hoje mesmo uma visita ao Twitter dele antes de publicar esta matéria. Sintam-se à vontade para colaborarem com suas opiniões ou possíveis legendas para cada uma das imagens…

Expectativas de família… E o que elas podem nos fazer…

Na selfie tudo é sempre perfeito… Mesmo com a realidade uma bagunça!

“Eu estou completamente bem”. Até as aparências serem retiradas…

Cuidado para não te seduzirem perigosamente! Principalmente pelos ouvidos…

O que o coração nos faz sentir…

Restos de amor alimentariam tantos olhos curiosos?

Apenas um relacionamento “normal”…

Apatia…

Sincericídios

Solidão…

Quando suas asas cansam de lhe carregar.

Amor próprio: Quando você fecha teu coração…

Nó na garganta…

Você e seu trauma…

Remontando-se, peça por peça. Ou SIMPLESMENTE SEGUINDO NA INCOMPLETUDE…

Quando você está preso, sem saber como sair de uma situação.

Ansiedade… Te martela e te tortura! Sendo concreta ou não…

Quando você fica sem energia. E não consegue sair do lugar…

A lógica corporativa do nosso mundo: sugar e descartar… Quando parece que seu trabalho está sugando toda sua energia vital.

Cansado, totalmente destruído. Quando as cordas de marionete caem…

O tempo nos esmaga! Ou pode se tornar um peso nas costas…

O tempo é impiedoso.

Visite o parque, mas nunca poderá aproveitar de verdade!

Sentimentos desperdiçados… Partes perdidas de  nosso ser, que ainda assim podem  criar algo belo!

[Analisando Filmes] – Tempestade de Verão – FINAL

Cá estamos nós com mais uma continuação de um filme clássico de terror. E indo direto ao ponto, na matéria anterior falamos sobre as visíveis mudanças no aspecto psicológico do nosso vilão, Ben Willes,  onde agora ele deixa para trás qualquer sombra do pai que antes virara assassino para vingar a filha e a si mesmo e de fato se torna um típico monstro, mostrado neste roteiro como alguém que agredia a esposa no passado e uma máquina de matar no presente.

Então retomando a sequência de acontecimentos do filme, após a briguinha de Julie e Ray acontecem várias ceninhas que teoricamente deveriam assustar mas tiram toda tensão que um filme como este precisaria  manter – quando você descobre repetidas vezes que era só medo infundado da personagem e não havia nada lá – onde Julie sempre pensa estar vendo ou ouvindo Ben tanto em seu quarto quanto até numa boate para onde a amiga Karla a pressiona à ir.

Aliás a amiga e colega de quarto vive tentando empurrar Julie para Will (Matthew Settle),  um amigo de seu próprio namorado Tyrell (Mekhi Phifer), negro como ela, confirmando como sempre o padrão americano de que as pessoas apenas se atraem ou se apaixonam somente por outras pessoas COM A MESMA RAÇA OU ETNIA. Tyrell ocupa no filme o lugar de “o cara que só pensa na virilidade” enquanto Will tentará (irritantemente) ocupar o papel do “certinho romântico”, com quem a Julie diz não querer nada tantas vezes que na metade do filme você já está gritando com Karla por insistir tanto em juntar os dois e bem longe de achar isto engraçado, como se nota que foi a princípio a intenção do infeliz roteirista… O fato – que fracassará miseravelmente como “grande revelação” no final – é que ironicamente Will Benson é filho de Ben Willes, e mais pateticamente irônico ainda é que o moço é um personagem tão “bem construído” (aspas=sarcasmo) nesta história que o nome e sobrenome dele é uma inversão óbvia do sobrenome e nome de seu pai! (Kevin Williamson, cadê você com teus roteiros maravilhosos  nesta horas!?)

Aliás faço minhas as palavras de outro telespectador deste filme que vi dizer que quando Julie e sua colega de quarto Karla ganham quatro viagens para uma ilha nas Bahamas na promoção de uma rádio, as circunstâncias suspeitas da vitória das garotas “causam pânico no espectador brasileiro antes das mortes começarem”. Ele tinha razão, pois elas simplesmente respondem a pergunta de uma promoção dizendo que a capital do Brasil era Rio de Janeiro! Alguém se esqueceu de lhes avisar que a resposta estava com muitas décadas de atraso.

Posteriormente Estes (Bill Cobbs), um antigo funcionário do hotel para onde as moças vão, será quem irá alertar-lhes e mostrar no mapa o engano, bem mais tarde e quando as primeiras mortes acontecem. Ele é um homem sábio e negro, que funcionaria bem como uma boa alegoria do “velho sábio” – que em filmes mais antigos de terror, podia ser um “velho sábio e sinistro” interpretado por muitos como um “mensageiro”, que costuma alertar sobre o que “se deve ou não fazer para sobreviver”… Mais recentemente Wes Craven, com sua metalinguagem,  atualiza esta “figura” para um “geek de filmes de terror” que conhece bem todas as “regras” de sobrevivência. Mas este é assunto para um próximo artigo… Neste vale dizer que já quase no final do filme Estes aparece como praticante de voodoo e por isto muito preconceituosamente acusado de assassino quando pequenos  pertences de Julie e seus amigos somem, e depois eles descobrem estar num altar na casa do idoso senhor. Que na verdade apenas estava tentando protegê-los com seus rituais ao perceber que coisas realmente sombrias (e que nada têm haver com práticas místicas ou religiosas) estão acontecendo.

Então, ainda na chegada de Julie e Karla à (por enquanto) ensolarada ilha, sem conseguir mais inovar com a temática do verão soturno (como foi feito lindamente no primeiro filme) o roteiro de “Eu ainda sei o que vocês fizeram no verão passado”   tenta se voltar por alguns minutos para o “verão genérico”, com piscinas e praia nas Bahamas… Embora em seguida o objetivo seja frustrar esta ideia colocando os personagens isolados num resort deserto com uma infindável tempestade de verão, que dura da metade de filme até o final – e eis aqui a justificativa do nome do artigo.

Como já dizia o falecido Randy Meeks, personagem “geek de filmes de terror” que mais me representava em “Pânico”/Scream: “as sequências de terror por definição são filmes inferiores aos originais e a contagem de corpos é sempre maior”, e ele estava certíssimo! Pois daí para frente será tudo o que veremos neste filme! Fazendo a alegria dos que assistem tais filmes apenas para ver as mortes mais bizarras e colaborando para a má fama do gênero quando isto acontece numa trama rasa como esta… O que se inicia após uma rápida interação de Julie e companhia com personagens coadjuvantes locais do hotel tais como uma barwoman Nancy  (Jennifer Esposito, que dois anos depois seria a vampira Solina em Drácula 2000)  que lhes serve uma bebida com nome particularmente interessante: “Tempestade Sombria”, a qual define exatamente a situação na qual eles se encontram.

Havia também um recepcionista e gerente arrogante e racista (Jeffrey Combs, repetindo personagens que já havia feito em outros filmes), o já mencionado Estes, Titus um maconheiro local que tenta vender erva para tudo que se mexa e tenta ser um alívio cômico no filme ( o querido e talentoso Jack Black, muito mal aproveitado e com uma morte absurdamente estúpida) e um funcionário das barcas negro e  uma camareira latina que nunca saberemos o nome porque morrem rapidamente e sem justificativa alguma somente para aumentar a contagem de corpos.

Então depois da tentativa de Ben em literalmente fritar Julie em uma das esteiras de bronzeamento artificial do resort, as famosas cenas de perseguição aqui foram trocadas por sucessivos gritos diante de cadáveres que vão tirando toda aquela maravilhosa tensão que as cenas de perseguição do primeiro filme nos davam. E aqui temos sustos mal dados  em, não uma, mas três moças sobreviventes – apesar de uma delas morrer pelo caminho: Julie, Karla e Nancy, onde elas vão encontrando um corpo atrás do outro… E cabe aqui mencionar um detalhe por trás das câmeras de que a princípio seria Karla quem morreria, mas acabaram mudando para Nancy.

Será que posso crer, pessoalmente, que talvez ficasse “feio” uma funcionária coadjuvante e sem importância para a trama (além de preparar as “Tempestades Sombrias” unicamente)  sobreviver, e uma coprotagonista negra morrer sem mais nem menos…? Contudo, tal pensamento pode ser pura ingenuidade minha considerando que na contagem de corpos os negros certamente ganham em disparada neste filme. Algo que não é exclusivo deste, uma vez que muitos filmes mais antigos seguem este padrão de mortes focado na hierarquia racial…Houve inclusive críticas sutis à isto na metalinguagem dos filmes de terror dos anos 90 e de maneira bem mais direta nos últimos anos.

Aliás, lembra do namorado da Karla, neste filme? O Tyrell… Além do fato de que ambos, O CASAL NEGRO (que deveriam ser COPROTAGONISTAS para formar um “novo quarteto” junto a Julie e Will) simplesmente NÃO TINHAM SOBRENOMES,  o texto do rapaz se resumia apenas a querer transar e falar disto todo tempo… E por mais que ele estivesse ocupando o lugar de Barry Cox como “o idiota do grupo” até o falecido loiro que era um imbecil hipócrita tinha falas melhores!

Encerro perguntado retoricamente… Quem escolheu este roteirista mesmo? Porque Kevin Williamson ficou de fora desta vez? Bom, provavelmente por sentir o “cheiro de tempestade sombria” no ar. Então, tomem cuidado com promoções e viagens suspeitas, veja se tem alguém com um gancho embaixo da tua cama antes de terminar de ler, e até o próxima postagem…Que será uma outra franquia, um filme original e e não sequência, assim por definição bem melhor que o de hoje.

[Analisando Filmes] – Tempestade de Verão – PARTE 1

Saudações novamente fãs do terror e do suspense! O filme de hoje é nada menos que a continuação do anterior estrelada pelos sobreviventes do filme que analisei na matéria anterior.  Feito em 1998 na tentativa de seguir o merecido  sucesso de “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado”, o precursor “Eu AINDA sei o que vocês fizeram no verão passado” (“I STILL Know What You Did Last Summer”) foi dirigido por Danny Cannon, com roteiro de Trey Callaway. Vejamos quais detalhes relevantes podemos extrair deste aqui, embora desde já vou dizer que senti demais a falta de Jim Gillespie e Kevin Williamson, respectivamente diretor e roteirista do anterior. Então analisarei não somente alguns dos pontos altos, mas também os pontos baixos e incoerentes do filme.

Bom, não gosto muito de analisar sequências muito detalhadamente, uma vez que na esmagadora maioria das vezes elas perdem muito da essência e da profundidade dos filmes originais… Contudo há exceções (talvez raras) quando não estamos falando de sequências cinematográficas previamente planejadas, e algumas ainda valem como diversão ou simplesmente para se ter uma ideia de como ficou a vida dos personagens principais após o “final” da história. Se esta que analiso vale ser assistida ou não prefiro deixar o julgamento de vocês, mas certamente o original é melhor…

A aspas no vocábulo “final”, linhas antes, é porque histórias macabras parecem nunca ter um final definitivo, e sim sempre algo em aberto…Uma vez que sempre vale a regra: “se não houve corpo o assassino não morreu” e cá entre nós alguns filmes do gênero seguem esta lógica até depois do corpo aparecer, introduzindo elementos sobrenaturais ou quando estes já existem. Conheço uma música (que infelizmente não consta na trilha sonora deste filme) que dizia que “o mal que os homens fazem vive para sempre”… Acho que era mais ou menos sobre algo assim  que ela falava.

Bom, em “Eu ainda sei o que vocês fizeram no verão passado” (certamente um dos slashers com maior título já feito), a primeira cena suspeita desta vez não possui nenhuma trilha sonora especial para nos transportar à atmosfera soturna alguma, mas o próprio silêncio ambiente da cena e o foco no diálogo que sucede nos instiga um sentimento de curiosidade a princípio ao ver Julie (Jennifer Love Hewitt) , a nossa querida sobrevivente principal, em uma igreja confessando seus pecados sobre o acidente que mudou sua vida antes tão pacata. Gostei de como esta cena inicial deixa claro o sentimento de culpa intenso que ela ainda carrega acerca de todos acontecimentos passados. O ato da confissão cristã me soou uma ótima alegoria desta culpa, um daqueles clichês que sempre dão certo aos quais costumo elogiar, embora o filme esteja repleto de clichês mal usados mais adiante.

A cena que se segue chamou bastante minha atenção e não causou o efeito de “susto” desejado porque me pareceu bem familiar, pois quando a moça desperta gritando em plena sala de aula e descobrimos que era tudo um sonho me pareceu uma referência muito clara à algo que também aconteceu de modo idêntico em um filme de 1984 intitulado “A Hora do Pesadelo”/Nightmare on Elm Street (do mestre Wes Craven, de quem ainda pretendo falar em matérias futuras e que vocês devem  conhecer), na verdade a cena teve uma semelhança fotográfica que não me passou desapercebida. Gostei de verdade  da cena, mas ou foi referência gritante ou de fato cópia.

Logo o clima de suspense começa a ser quebrado após o foco se seguir no relacionamento dos sobreviventes: Julie James  e Ray Bronson, e aqui começam as incoerências. Pois a meu ver a maioria delas parecem perseguir o personagem de Freddie Prinze Jr, uma vez que notei um certo esforço do roteiro para preservá-lo na trama e ainda tentar fazer dele um “herói” de um  modo que me pareceu um pouco forçado, ao qual deduzo que foi para manter no elenco o ator que (como citei no artigo anterior) era um queridinho hollywoodiano naqueles anos.

Assim na primeira cena em que Ray aparece a própria Julie pergunta à ele o que todos os espectadores estão pensando naquele momento: o que ele está fazendo ali. Sim, porque se ela estuda fora da cidadezinha litorânea a qual ambos pertencem e fica claro que ele não, então por que diabos o jovem pescador faria uma viagem tão longa para visitar a namorada sem que ela mesma soubesse? E ainda apareceria literalmente do nada no campus de sua Universidade? Bom, a explicação que se segue é que ele veio para levá-la à cidadezinha natal deles para “as famigeradas festividades de 4 de julho” as quais conhecemos bem do primeiro filme, pois, foi exatamente quando e onde TUDO aconteceu nos últimos anos, e Julie (logicamente) logo se mostra resistente a voltar com ele.

E foi aí que  o “perfeitinho” do primeiro filme já começou a se tornar irritante, pois que tipo de bom namorado vem de longe para levar uma garota para uma festa onde eventos traumáticos ocorreram não somente para ela, mas para ele também e ainda fica chateado de ela preferir não ir? Um que tenha “peixe no cérebro” como Karla (a cantora de “Talk About Our Love”, Brandy Norwood), a colega de quarto e “nova melhor amiga da protagonista” diz em certo momento… Então, senhoras e senhores, ESTE não era o Ray que conhecermos anteriormente! Sem dizer que nas próximas linhas expressarei minha frustração pelo roteiro não apenas com isto, mas principalmente pelo desperdício imenso de oportunidades para uma trama muito melhor…

Desperdício este de um roteiro  que inclusive manteria Ray nesta história de modo bem mais convincente e interessante do que foi feito… E ainda com a boa sacada (que não houve) de  aproveitar bem pontos do primeiro filme, como foi tentado muito parcamente ao meu ver… Porque há uma cena no primeiro filme onde Ray dizia: “A profecia se cumpriu, eu me tornei meu pai… Meu pai era pescador, é tudo o que sei sobre ele…”…Cena seguida de alguns indícios de que havia momentos em que Benjamin  Willes, nosso pescador assassino a quem sabíamos ter uma filha falecida na idade dos protagonistas, parecia “pegar mais leve” com Ray do que com outras possíveis vítimas e isto é um fato inclusive questionado por Barry, um dos personagens que depois morre.

Por que cito isto? Porque encerrei a última matéria citando a questão social de Ray perante os outros protagonistas – que continua a mesma inclusive – e uma possível ligação dele com o assassino, que menciono agora: ambos eram pescadores, tal qual o desconhecido e mencionado PAI de Ray. E, como quem viu ambos os filmes da franquia (ou até mesmo somente este segundo) possivelmente sabe, a trama dá um suposto filho a ao nosso assassino-pescador… E estou de fato aqui analisando agora que a trama seria mil vezes mais coerente se ao final descobríssemos que este tal filho fosse Ray, baseando-se nos detalhes que acabo de destacar… Eu REALMENTE esperei por isto na época quando soube que haveria uma continuação, e até hoje fico com Ray como filho de Ben Willes em um canto minha mente quando fico muito tempo sem assistir ambos os filmes.

Porém infelizmente a história tomou um caminho bem mais banal, sem sentido e que por fim tentou trazer o impacto de “uma grande revelação” de maneira fracassada e muito menos competente. (Dói ver um grande clássico do cinema ser violado! Mas é o que mais acontece quando um filme possui renome, infelizmente…Com filmes e várias outras mídias.) Bom, talvez o sentido seria usar este “filho” como pessoa próxima para preparar a armadilha para Julie, como foi feito, e Ray não se encaixava no perfil. Contudo então que isto fosse feito de modo mais coerente e que Ray não passasse o filme todo indo de uma cidade à outra e por fim para BAHAMAS como se a distância fosse “logo ali na esquina”, sabendo-se que ele era um rapaz pescador de poucas posses, para depois de tudo chegar lá com “pinta de salvador” e NÃO FAZER ABSOLUTAMENTE NADA!

Mas como ainda estamos no início vamos por partes, como diria Jack o Estripador ou o próprio Ben Willes, que inclusive passa a ter um “upgrade” em sua arma de matança  nesta sequência: antes ele usava um gancho para matar em lugar de lâmina, agora este de fato se tornou sua mão, que havia sido decepada ao final do primeiro filme. E notamos facilmente a mudança de sua personalidade, que antes era assustadora mas ainda podíamos enxergar um pai que havia enlouquecido com a morte da filha e matado aquele a quem julgava responsável por isto, ou o vingador que elaborava toda um jogo psicológico de perseguição e morte àqueles que haviam “matado” ele mesmo e se descartado seu corpo…Agora ele de fato se torna um monstro, que agredia a esposa no passado e uma máquina de matar no presente.

CONTINUA…