[CONTOS] Natureza Maligna

A autora do conto a seguir é Shirlei Massapust, graduada em Filosofia pela UFRJ e em Direito pela UNESA, Mestra em Filosofia pelo CEFET/RJ. Publicou alguns trabalhos no livro Voivode: Estudos Sobre os Vampiros, da Carcasse, único livro da editora Pandemonium. Publicou um artigo na Coleção Chás para a filosofia, vol. Camomila, editora PUBL!T. Escreveu a coluna Gato Preto para a antiga revista Carcasse (online), colaborou com alguns textos no site da Rede Vamp.

Designer de capa: ÉRICA FARINAZZO

Que barulho é esse? Lastra correu para as grades da janela, mas só viu a mesma rua e o mesmo céu que sempre estiveram lá. Lastra estava ali desde sempre, trancada no quarto, e por isso se julgava feliz.

A menina cometera o crime de nascer sem pênis num lar fundamentalista ultra-ortodoxo e, assim como todas as outras portadoras da mácula de Eva – com exceção da Virgem Santíssima – era um demônio encarnado. Ela queria sair, mas não para a rua.

O universo onírico não era apenas o único lugar acessível além da porta fechada. Era também o único que importava. Ali ela voaria, correria e faria mil coisas divertidas. Porém o barulho também estava lá. Um ronronar diferente… Cachoeira descendo pelas escadas… Lastra acordou.

Ao consultar a fechadura deparou-se com outra retina barrando-lhe a vista. Sem se incomodar com o brilho vazio daquele olhar, deu de ombros e voltou para a cama. Continuou insone por causa das batidas na porta…

Acaso aquele olho curioso não sabia que ela não tinha a chave? O que diabos alguém haveria de querer com o monstro do armário? Num dado momento o estranho desistiu de bater e conseguiu derrubar a porta.

Lastra pulou da cama e viu que estava sangrando. A hemorragia lhe sujara pernas, roupas e até um ponto do lençol. Era a quinta vez que essa coisa estranha acontecia — durava quatro ou cinco dias, cerca de uma vez por mês. — Provavelmente tinha vermes comendo suas entranhas. Certo? Tanto faz. Pouco importa.

Ela driblou o estranho e tropeçou no cadáver de seu pai, estendido sobre um plástico no chão da sala. Não havia mais quem lhe batesse ou trabalhasse para sacia-lhe a fome.
Pensou em voar ou fazer alguma das coisas que praticara nos sonhos, mas só conseguiu correr. Por que seus poderes de demônio não funcionam nesse mundo?

A menina andou na rua pela primeira vez. Quis abordar outras crianças. As garotas correram gritando e os moleques lhe atiraram pedras. Lastra percebeu que não era como eles – nem mesmo como as meninas. – Entrou numa loja de calçados onde contemplou um grande espelho, quase da sua altura. Recuou diante da imagem que nunca vira…

A camisola transparente, suja de sangue, formava um conjunto tétrico com sua lividez anêmica, cabelos desgrenhados e unhas por fazer. Ela parecia muito mais com o estranho que invadiu sua casa do que com outros seres humanos… Deviam ser da mesma espécie… Talvez pudesse lhe ajudar, afinal! Ela retrocedeu em seus passos, até encontrá-lo em casa, tentando arrastar o cadáver.

— Oi moço.
O vampiro falou nervosamente:
— Garotinha, por que você voltou? Seu pai morreu.
— Tudo bem, ele era humano.
— Como?
— Ele não era demônio como nós. Era bom e me batia.

O estranho afagou a cabeça de Lastra com ternura. De princípio ele pensou na menina apenas como sobremesa, mas logo viu que não podia mais continuar com aquilo.

Durval sabia que deixar alguém fugir ou viver seria um erro fatal… Que assim seja! O vampiro ocultou o cadáver, deixou a menina na porta dum abrigo de menores e se preparou para encarar o seu próprio fim.

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COLETÂNEA ILUSTRES DESCONHECIDAS – Volume 1

Hoje estou simplesmente com vontade de indicar bandas que talvez muita gente não conheça, ou realmente quase ninguém conheça. Mas são importantes para mim já há muitos anos, e gostaria de compartilhar. Após bater um papo sobre bandas com uma colega em um evento de rock, fiz esta lista para ela, como lhe prometi. Mas a incrementei de modo mais detalhado, pois acho que pode agradar aos ouvidos de outras pessoas e quem mais sequer saberia que existem… Não há bandas nacionais, mas na próxima lista haverá, porque a colega para quem a lista foi originalmente feita disse que já conhecia muito do nosso vasto cenário da música alternativa e rock underground nacional (e sei que de fato conhece).
Se bem que até hoje praticamente todas as bandas que tenho postado em matérias e entrevistas vistas aqui tenham sido nacionais. E esta será a primeira vez que trarei musicistas de outras nacionalidades.

Então, sem mais por hora, conheçam estas bandas ilustres desconhecidas…

 

*Abaddon
País ou localidade: México

Eis a primeira banda de rock/metal com vocal feminino no México e na América Latina! A vocalista era a cantora Brenda Marin, chamada por alguns mexicanos de guerreira do rock asteca, exatamente por enfrentar o machismo que lá também já costumava haver dentro deste estilo.
Recomendo ouvir:
Faixa título da banda Abaddon, Formas del mal, Madame Bathory, Pesadilla Mortal…
E deixo um pequeno documentário sobre a banda exibido na época pela Televisa:

OBS: a busca da internet registra mais de vinte bandas posteriores com o mesmo nome, e sem nenhuma relação com esta ou menos ainda semelhanças sonoras.

 

*Las brujas
País ou localidade: Argentina

Estamos mais uma vez diante de pioneiras, pois esta é a primeira banda somente de mulheres da argentina, formada em 1987, com estilo focado no Heavy metal básico, que com a pegada latina ganha identidade própria como a Abaddon mencionada anteriormente…
Recomendo: O álbum Me llaman la loca inteiro, com destaque para músicas como La Loca, Las brujas existen, El habitante solitario, Fusílame en cámara lenta, esta última é um instrumental…

 

*Morituri
País ou localidade: Portugal

Banda com estilo pós punk dos anos 80, Foi a primeira deste estilo a existir naquele país em 1985, mas infelizmente não sobraram muitas informações online sobre a sua trajetória e seus membros…
Recomendo ouvir: Ascensão e Queda, Luzes Vermelhas e Tédio, esta última tem tem um clipe ótimo, como mostrado acima…
OBS: há outra banda chamada Morituri, mas é black metal dos anos 2000, cuidado para não confundir…

 

*La Peste Negra
País ou localidade: Espanha

Banda que mescla pós punk e death rock formada em 2002. Suas letras possuem temática de terror clássico e mesclam caveiras, espíritos e pitadas de psicodelismo sombrio. Nota-se influência sonora de bandas como Bauhaus, Christian Death, 45 Grave e até Sisters of Mercy, de quem a banda já fez cover, contudo a La Peste Negra adiciona sua identidade peculiar e distorções tanto sonoras quanto temáticas. Seus shows são bastante teatrais, excêntricos e darks, se encontram ainda na ativa até hoje…
Recomendo ouvir: La Escalera, Vida Telecinetica, No mi parece bien ni mal e Tumbas
OBS: Banda não muito fácil de se efetuar buscas porque fácil se cai em páginas ou vídeos sobre a peste negra histórica, a qual a banda também menciona, mas apenas em UMA música. Mais fácil encontrar em sites em espanhol.

 

*Hysterica
País ou localidade: Suécia

Banda de heavy metal de Estocolmo composta somente por mulheres, com um nome sugestivo e que faz uma certa ironia proposital. Fundada em 2005. Infelizmente se tem poucas informações sobre membros e historiografia até o momento…
Recomendo: Girls made of Heavy Metal, We are the undertakers, Force of Metal, Heels of Steel

 

*Warbride
País ou localidade: USA

Achei no Youtube por acaso há alguns anos, esta banda de 1988, com som que reflete bastante uma pegada puramente oitentista, o que costuma ser raro no metal melódico com bandas inteiramente femininas… Infelizmente não encontrei muitos dados sobre sua trajetória, membros ou história…
Recomendo: Chains (Acho o refrão desta música é muito forte!), Nevermore, The Tower,
Rulers Of The Night

 

*Inkubus Sukkubus
País ou localidade: Reino Unido

Por último e não menos importante uma banda pela qual nutro carinho especial por vários motivos, um deles foi tanto seu nome quanto suas letras abrirem todo um mundo novo para mim e despertarem meu interesse para temas e mitologias que até então eu desconhecia ou até mesmo temia… Mas que hoje aprendi a apreciar.
Possui uma sonoridade difícil de ser rotulada em um único estilo – exatamente o que me conquistou logo de cara quando a escutei pela primeira vez em 2005 – e existe desde 1989 estando (incrivelmente) na ativa com os mesmos membros até hoje. Se autodefinem como PAGAN ROCK, pois suas temáticas tratam quase exclusivamente de temas pagãos…
Recomendo ouvir: Heart of Lilith, Incubus, Intercouse with the vampire,  Take My Hunger, Midnight Queen, Burning Times…
(Indicaria certamente toda a discografia até 2001, mas sou suspeita pois ouço praticamente toda semana, já há alguns anos…)

Bom, algumas bandas aqui citadas pretendo aprofundar em matérias futuras e exclusivas… Contudo estou fazendo neste estilo de lista aproveitando para detalhar mas a que fiz para a situação que citei no início da matéria e também pelo fato de que há bandas aqui das quais eu já queria falar há algum tempo mas infelizmente carecem informações disponíveis suficientes para uma reportagem exclusivamente sobre elas, pois faltam dados sobre sua trajetória, membros ou história…
…Detalhe técnico que é facilmente superado por suas peculiaridades, sonoridade e qualidade musical, fazendo com que componham esta lista. Hoje foram apenas bandas com vocais femininos, mas nas próximas matérias deste formato tenho muitas outras, masculinas, mistas, teatrais ou mais básicas, e com inúmeros estilos de vocal e sonoridade para listar.

A com uma brincadeira no título da matéria que se refere ao fato de que o termo coletânea sempre foi  mais usado na música para se referir a álbuns com vários artistas, e nos últimos anos viraram moda também as coletâneas de contos com vários autores e autoras, ilustres desconhecidos em sua maioria, as quais também costumam ser mais chamadas de  antologias e com as quais tenho convivido muito…Talvez se torne título permanente caso este estilo de matéria se torne um quadro, ainda pensarei e aceito sugestões.

Catarse de Guardians

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A autora Luciane Rangel começou lá em 2007, publicando seus textos em blogs e comunidades do Orkut. No final de 2010, lançou seu primeiro livro físico, Guardians, em uma publicação totalmente independente, que se encontra no momento em campanha de financiamento coletivo para a impressão de uma nova tiragem do livro…

Cuja SINOPSE lembra muito clássicos dos animes, como Yuyu Hakusho e Sailor Moon, talvez com uma pitadinha de Saint Seiya, contudo apesar de tais bases aparentes podemos dizer se tratar de uma história com total identidade própria e outras surpresas ao longo das laudas:

“O mundo dos homens é protegido do mundo de malignas  criaturas por uma barreira dimensional. Frágil e sob constante ameaça, ela  é protegida por doze guerreiros sob os signos das estrelas: os Guardiões.

A missão desses jovens é evitar que catástrofes tomem o mundo, fechando uma fenda na barreira e impedindo a passagem dos monstros.

Porém, por mais que tenham incríveis poderes, as fraquezas inerentes aos humanos – o amor, o ódio, a vingança e a hesitação – continuam presentes, tornando a missão um pouco mais difícil do que parecia ser…

Todos lutam por aqueles em quem acreditam.

E você? Está lutando por quem?”

Luciane luta neste momento para nos trazer mais uma obra de qualidade e sensibilidade para a literatura nacional… Para apoiar clique:

https://www.catarse.me/livroguardians

 

Ela é autora também dos livros Tenshi – Um Anjo sem asas, publicado pela Era Eclipse Editora, e, pela Qualis Editora, lançou os títulos Destinos de Papel, Contando Estrelas e Rock Star. Além destes trabalhos, possui também inúmeros títulos publicados em e-book através da Amazon, e alguns também disponíveis para leitura gratuita pelo Wattpad.

Além de escritora, roda o país fazendo palestras, visitação de escolas e participação em feiras literárias e eventos Geek. É Bacharel em Direito, apesar de pouco ter trabalhado na área, mora no Rio de Janeiro e é apaixonada por cultura japonesa, mangás, cultura geek, origami, animais, artigos de papelaria, Sailor Moon e, é claro, livros!

[CONTOS] Nas sombras da catedral

A autora do conto a seguir é Márcia Medeiros, professora universitária e de vez em quando faz passeios pelo mundo da imaginação. Autora também do livro “A Idade Média Narrada por um Vampiro“, resenhado ano passado aqui no site.

 

Designer de capa: ÉRICA FARINAZZO

 

Se havia uma coisa que me deixava desconfortável em Paris, eram as cercanias da catedral de Notre Dame. Nunca me senti a vontade passando por aquele gigante de pedra com as gárgulas dependuradas olhando para a imensidão, de bocarras abertas como se em um riso de escárnio.
Reza a lenda que o lugar onde a catedral foi erguida era um santuário celta muito antes de tudo. Depois, quando os romanos tomaram a região, passou a ser um local onde o deus Júpiter era cultuado. Não sei se essas histórias são verdadeiras e, sinceramente, não me importa.
Mas a catedral está sempre lá e de suas torres, como que vigiando os passantes (ou escolhendo suas vítimas) estão aquelas figuras horríveis. Como eu detesto aquelas malditas bestas de pedra! Meus amigos riem de mim, por conta do medo que tenho. Pierre sempre me diz que as gárgulas tem uma função técnica naquele lugar: servem para escoar a água da chuva e fazer com que ela caia sem danificar a estrutura da construção.
Já pesquisei em livros e sei que isso é um fato. Mas também já li que as gárgulas estão lá na condição de guardiãs do templo. É sério! Elas foram dispostas em torno de toda a catedral para lembrar que o Bem está dentro da igreja e, em tese, seu aspecto medonho serve para garantir que o Mal fique do lado de fora.
Por que não colocaram anjos para fazer esse serviço? Sei lá! Uma imagem do grande Miguel com sua espada flamejante não me daria tantos arrepios quanto àquelas figuras hediondas. E vou ser sincero em dizer que meu temor em relação a elas piorou de uns tempos para cá.
Uma noite dessas, eu estava voltando para casa depois de um passeio pelas margens do Rio Sena. Eu só estava andando, despreocupado, pensando em nada a não ser na beleza daquela noite. Por incrível que pareça o céu estava limpo e até dava para ver as estrelas. O ar frio entrava nos meus pulmões e me fazia sentir incrivelmente bem, coisa rara nos últimos tempos.
Quando dei por mim, eu estava praticamente na catedral. Meus passos me levaram para lá sem que eu percebesse, tão desligado do mundo eu estava. Senti o desconforto característico que sempre me acomete quando passo perto da igreja, mas naquela noite, a sensação foi bem pior.
De repente, um vento mais cortante que o ar gelado que eu respirava me atacou, fustigando minhas faces como um chicote. Encolhi-me dentro da jaqueta, mas nada parecia ser capaz de me proteger daquele açoite violento. Um barulho vindo do alto me fez erguer os olhos em direção a catedral. Nesse momento minhas pernas enfraqueceram e sinceramente eu não sei como não caí estatelado no chão.
Eu vi uma das gárgulas se movendo! Eu juro que vi!
As pedras de que são compostos aqueles corpos horrorosos foram se transformando em uma carne com aparência pegajosa e aos poucos, a gárgula foi abrindo suas asas como se estivesse acordando depois de uma boa noite de sono. Ela olhou na minha direção e sua bocarra se abriu mais ainda revelando uma fileira de dentes afiados. Um fio de saliva escorreu pela cara daquela deformidade sem nome e eu ouvi aquele monstro estalar a língua, parecendo dizer que eu seria um petisco apetitoso.
Não esperei para ver o que poderia acontecer. Virei-me e saí correndo como um desesperado, e só parei quando cheguei ao meu apartamento. Tranquei a porta quando entrei, passei reto pela sala e me fechei no quarto. Tentei me acalmar dizendo a mim mesmo que aquilo tudo não passava de uma alucinação. Talvez efeito da taça de vinho que havia tomado no jantar.
O som da risadinha nervosa que saiu da minha boca me preocupou ainda mais, invés de me acalmar. Pensei que dormir um pouco me faria bem. Então, meti-me embaixo das cobertas antes que a sanidade me escapasse da mente como a água escorre pelo meio dos dedos. Em um instante estava nos braços de Morfeu.
Foi nessa noite que os pesadelos começaram. Eles são sempre iguais. Estou caminhando pelas margens do Rio Sena, nas proximidades da Ile de La Cité. Nunca quero ir em direção da catedral, mas meus pés se movem para lá por conta própria. Quando dou por mim estou aos pés daquela bizarra construção e nesse momento, as gárgulas alçam voo e me alcançam com suas garras.
Duas gárgulas me seguram e brincam de cabo de guerra com meu corpo. Elas me puxam de um lado para outro enquanto cravam os seus dentes na minha carne, deliciando-se com a iguaria que me tornei para elas. Ouço as risadas malignas das outras bestas que voam em círculos contra um céu vermelho sangue. Nunca sei se o céu está vermelho porque, no meu sonho, o sol está se pondo, ou se ele fica vermelho por causa das feridas que o ataque das gárgulas provocou.
Sempre acordo nesse momento, antes que elas me despedacem completamente. Mas observei que, a cada noite que passa, parece que eu demoro mais para acordar. Também sinto que meu corpo está dolorido. Quase como se de fato, alguém tivesse passado a noite inteira brincando de cabo de guerra com ele. Não tenho marcas aparentes, nem sinal de ferimento algum, mas sinto dores horríveis. Como se estivesse ferido por dentro.
Eu iria ao médico hoje, justamente por isso. Mas cancelei a consulta, porque quando saí do prédio em direção à clínica juro que ouvi um rufar de asas atrás de mim. Eu também ouvi uma risadinha de escárnio, que me arrepiou até os ossos. Mas o pior foi mesmo o som do que pareceu uma língua estalando. Como se a gárgula que eu vi se mover na catedral estivesse pronta para me atacar.
Voltei imediatamente para casa. Achava que estava seguro no meu apartamento, ou pelo menos esperava estar. Acontece que, quando entrei, a primeira coisa que fiz foi me dirigir até a janela da sala. Eu amo a vista que se descortina através dela. Desde que vim morar aqui, me encantou olhar as luzes brilhantes da cidade à noite, colorindo de luz a escuridão.
Mas quando descerrei a cortina, eu tive a pior visão que poderia ter: invés vislumbrar os telhados, as ruas, o café logo na esquina; vi uma gárgula pendurada no parapeito da janela. Ela olhou nos meus olhos e abriu sua bocarra. Sua língua se projetou para fora com aquele som de estalido que eu odeio. O medo afrouxou os músculos da minha bexiga e urinei nas minhas calças, enquanto fugia em direção ao quarto.
Não que isso importe agora. Estou ouvindo o caixilho da janela que fica próxima da minha cama ser forçado. Sei muito bem o que é. Acho que elas vieram atrás da sua refeição…

[REFLEXÃO] Feliz Dia da Realidade!

 

…Ou podemos chamar de Dia da Sociedade, como preferirem! No Dia da Mentira certas inquietações me levaram à refletir… Um dos questionamentos ao qual cheguei foi dos mais provocativos, contudo pertinente:

Seria a nossa realidade a maior das mentiras?

Numa época em que as informações circulam com tanta facilidade e cada vez mais velocidade, curiosamente as certezas parecem estar extintas – ao menos do ponto de vista de quem ainda perseve a sensatez. Vivemos seguramente uma época de pós-verdades, onde cada qual escolhe crer no absurdo que lhe for conveniente.

A verdade nunca esteve tão distante da humanidade. Se é que em algum momento podemos dizer que ela seja absoluta. Contudo falo aqui da disseminação da prática da falsidade e da mentira como algo banal, normal e intrinsecamente cultural até. Não apenas no Primeiro dia do mês de Abril, mas durante todos os dias do ano.

Nunca nos sentimos tão mergulhados em mentiras, isto é facilmente observável. Desde as famigeradas FAKENEWS e suas consequências nocivas nas escolhas políticas e sociais, aos falsos “mitos” modernos e “heróis” da vida real onde tantas pessoas depositam suas expectativas de uma dita “salvação” e se frustram quando ela obviamente nunca acontece.

Passando pelas propagandas enganosas que praticamente já viraram um “exemplo de esperteza e empreendedorismo ousado”, valorizado e difundido pela maioria das empresas. Enganos e mentiras também nos amados ídolos da cultura pop, heróis históricos, e até figuras buscadas como exemplos e inspiração em décadas passadas recentes cujo lado obscuro da personalidade ou caráter tem sido mostrado na internet pelos últimos anos em vídeos e sites.

(Deixo como exemplo disto o vídeo abaixo…)

E chegando nas mentiras cotidianas mais próximas de nós, em nossas relações interpessoais, que na atualidade contraditoriamente se tornam cada vez mais impessoais e superficiais, meras trocas de interesses e jogos de manipulação através de uma rede de falsidade. A alienação emocional a qual estamos expostos coisifica pessoas, tornando-as meros objetos usáveis e descartáveis, onde até os sentimentos se transformam em mentiras.

A quantidade de distúrbios psicológicos e emocionais só aumenta, em sua maioria criados para rotular quem ainda não se adapta à falsidade ideológica cotidiana e banalizada, entendida como norma social. Traços profundos de uma sociedade que transmite valores distorcidos e mentirosos como aquilo ao qual se deva buscar, consumir e descartar…

Vivendo entre mentiras ditas e praticadas quase que por hábito e entendidas como algo deliberadamente “necessário”, onde se vive principalmente para a própria mentira do consumo desenfreado até uns dos outros, consumindo nós mesmos, e assim se esvaziando o sentido real da vida e da humanidade, plantando a indiferença.
Já não sabemos mais o que é mentira ou verdade. Não sabemos em quem confiar.

Não sabemos quem ou que situação nos mente… Desde os casos de “amor” onde uma pessoa olha nos olhos e declara afeto por outra, e depois a abandona na primeira dificuldade cotidiana… Ou onde amizades e afetos declarados, até comprovados por afinidades, vivências e em momentos cruciais. Mas que também se dissolvem facilmente no primeiro sinal de cansaço ou diferenças ideológicas, quando não por razões puramente superficiais.

Na obra filosófica, “Amor Líquido”, Bauman nos mostra a fragilidade cada vez maior dos laços humanos, e como estes estão cada vez mais fluídos. Assim nos escapam entre os dedos tão facilmente que o próprio conceito de relacionamento se modificou bastante nas últimas décadas, tanto as amorosas quanto as fraternais. Ouso dizer que em ambos os tipos, sendo cada vez mais empregado o conceito de “esteira fordista” (aquela história de que “a fila anda”), dentro em breve relações humanas confiáveis serão totalmento conceitos obsoletos ou pertencentes apenas à ficção. Se bem que já iniciamos este processo, mas isto é assunto para outra reflexão… Melhor voltarmos ao Bauman…

Pois a questão é que, na prática, as relações entre pessoas estão cada vez mais longe do que podemos chamar de real enquanto algo palpável e concreto. Enquanto o que possamos nos apoiar seguramente como algo sincero e verdadeiro, pelo que se valha à pena se dedicar sem em seguida nos sentirmos frustrados ou manipulados. Pois, ao que parece de repente tudo de bom que foi dito, vivenciando e sentido se torna uma estúpida mentira.

Ficamos assim sem chão diante do nada que se forma diante de nós no que antes era real. Ou ao menos PARECIA real. Contudo em dado momento se revela realmente uma mentira, e sem o bom humor que normalmente se costuma usar no primeiro dia de abril. Mas sim a tristeza de algo onde investimos, seja emocionalmente, materialmente ou mentalmente, e depois descobrimos que não havia nada lá.

Ainda falando em coisas que nos tiram o chão, eu poderia inclusive citar o vergonhoso episódio histórico que aniversaria nesta data, e que tudo tem haver com a temática da mentira usada para manipulação das pessoas. Entretanto não o farei, até mesmo porque não quero disseminar tal fato por hora, que faria minha reflexão mais pessista do que já é.

[CONTOS] Sonhos Mortais

 

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Sonhos Mortais

Sinopse: Um detetive, angustiado por não encontrar um assassino em série, fica entre os pesadelos e realidade ao tentar solucionar o mistério, que pode beirar o sobrenatural…

O detetive Queiróz tomava um conhaque numa tentativa de espairecer as ideias, pois ficava tenso e absorto diante de um caso sem solução. Detestava não saber o que fazer, enquanto um assassino fazia o que queria sem deixar rastros.

A cada trovão Queiróz se sentia dentro de um estúpido filme de terror, e a cada gole relembrava nitidamente a insólita cena do crime onde a sétima vítima jazia naquela mesma manhã.

A moça estava na cama, com metade do corpo pendendo ao chão. Uma  camisola a vestia, tal qual as vítimas anteriores, monstrando que também havia sido pega durante o sono.

Os seios fartos imóveis, seus braços pendiam lânguidos tal qual a cabeça de cachos escarlates. A face serena  parecia apenas dormir tranquilamente, se não fossem a pele morena empalidecendo aos poucos, e a confirmação pela perícia de relação sexual brusca na genitália, confirmando também o mesmo modus operandi das outras seis mulheres…

Entretanto o mais estranho naquele caso era que os peritos constatavam a presença de relações sexuais, mas não havia rastros de fluídos corporais masculinos ou sequer digitais na pele das falecidas.

Mais um gole amargo preencheu a boca de Queiróz. Quando ele ligou o rádio, enquanto se lembrou da insólita conversa que havia tido naquela tarde, após a ligação de uma mulher que dizia ter informações relevantes sobre o caso…

-Inês, você me disse ao telefone que teria um possível suspeito para o caso do “assassino dos lençóis”…

-Sim, tenho! Se o senhor mantiver a mente aberta…

-Assassino dos lençóis… Odeio como os repórteres brincam com a vida alheia dando apelidos para mortes sem solução! Mas o que você pode saber que ajude à solucionar este caso?

-Bom, se confiar em mim creio de fato saber o que aconteceu com aquelas sete mulheres… Sei quem as matou!

-Ora, se tem um testemunho com retrato falado, então vamos conversar em regime oficial, na delegacia!

-Não é tão simples, Queiróz…Já ajudei a prender um assasino investigado por você, mas desta vez não será tão fácil… Pois suponho que este não seja deste mundo!

-Como assim “não é deste mundo”?

O detetive indagou perplexo, e Inês colocou aberto sobre a mesa um livro antigo… Pedindo para o homem ler onde ela apontava. A face dele foi passando de tensa para irritada, e não pôde evitar um palavrão. Estava incrédulo. A mulher não se incomodou e continuou séria.

-Falei a pouco dos repórteres que brincam com casos sem solução, mas não esperava isto vindo de você, Inês!

-Não é piada! Lembra quando eu disse ao telefone que você teria que confiar em mim? E disse agora pouco que você teria que ter mente aberta?

-Mas, Inês… Mente aberta é uma coisa… E crer no além da imaginação já é demais! Então você acha que um demônio está matando mulheres? Chegando à elas através dos sonhos enquanto dormem? O que ele é? Um primo do Freddy Krueger, por acaso?

-Não Queiróz! É um Íncubo! Como você acabou de ler, e ver por si mesmo que tudo no modus operandi confere… A morte por asfixia e a relação sexual que constam no relatório do legista que você me passou é porque ele transa com elas até levá-las à exaustão… E assim as mata!

Inês falava séria, o que fez o detetive tentar se acalmar, pois por mais que aquela mulher parecesse narrar um romance de ficção, ela realmente acreditava no que dizia.

-Se você me falasse de um assassino que se baseia nesta lenda eu veria coerência… Mas um ente mitológico é uma crença irracional!

-Então por que não há sinais de fluídos ou digitais de um homem de carne e osso, Queiróz? E por que as portas e janelas dos quartos das vítimas estão sempre trancadas?

-Por que ele deve utilizar luvas e um preservativo… E ganhar a confiança delas para entrar…

-Bom, entendo de ocultismo há tempo demais para ter certeza e saber lidar, e você agora é o único que sabe deste segredo! Você tem uma filha, não é? Estou aqui me expondo exatamente para que você não corra o risco de encontra-la morta no quarto como aquelas mulheres…

-Olha, suposições malucas eu até tolero! E se não lhe respeitasse pediria para procurar um psiquiatra… Mas colocar minha filha nesta história passa do limite, Inês!

-Não é preciso me ofender ou alterar o tom de voz… Sei que tudo isto parece absurdo! Mas sei o ritual para fazer isto parar… Graças ao qual estou aqui viva! – Inês fechou o livro e se dirigiu à porta.

-Caso resolva entender que há mais forças operando sobre a terra e que elas às vezes nos influenciam mais do que a voz da razão permite, me procure! Apenas não espere que mais mulheres  morram para isto…

Um trovão trouxe Queiróz de volta à realidade. E agora, agitando o gelo no fundo do copo, ele pensava. Por mais loucura que aquela história toda de demônio dos sonhos  parecesse, era a explicação mais lógica até o momento para aqueles crimes que lhe tiravam o sono… E de fato pareciam um pesadelo!

Contudo não podia se deixar levar e perder o razão por causa de um assassino sem rastros. Mas que com certeza não era um demônio de sonhos, e sim mais um dos muitos demônios da vida real, fazendo vítimas e mexendo com o imaginário das pessoas que, como Inês e ele mesmo, tentam sempre encontrar uma explicação – real ou não – para aquilo que não pode ser explicado: a maldade humana sem limites.

Neste momento então notou o som do rádio que ainda tocava ao seu lado. A música que tocava incomodou. Dizia: “Sweet dreams are made of this… Who am I to disagree?”(***)

Queiroz o desligou.

 

(***”Doces sonhos são feitos disso… Quem sou eu para discordar?”)

 

 

[REFLEXÃO] Mulheres em rios vermelhos

Créditos pela bela imagem à/ao brilhante artista de nome ausente.
Para hoje, Dia Internacional da Mulher, um poema tão potente e magnífico que dispensa comentários iniciais…
Eu-Mulher
Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.”
Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.”

Me baseio nestas valorosas palavras para desejar de coração que possamos continuar sendo esta força-motriz, nós-mulheres em rios vermelhos, nos orgulhando de nosso sangue e de TUDO o que somos e ainda poderemos ser, a deixar nossa marca e nossas esperanças  pelo mundo hoje e todos os dias…

Na ancestralidade tribos indígenas e outras Culturas primevas de imensa sabedoria conheciam e honravam todas as mães de modo muito diferente da noção de maternidade difundida posteriormente,  pois acreditavam que elas geravam seus filhos sozinhas, sem a necessidade do elemento masculino, atribuindo-lhes a patogênese  – o que também em várias Culturas simbolizava sua independência e auto-suficiência.

Em alguns mitos e lendas, elas mantinham intercurso com seres ancestrais ou divindades, ou eram por eles intimamente tocadas. Gerando crianças destas uniões atípicas ou não. Um simbolismo rico, com muito a ser refletido e que muito pode nos ensinar, principalmente se usado para se analisar o que o feminino e o masculino, tal qual a união destes princípios, se tornou numa sociedade engessada e ao mesmo tempo tão confusa como a nossa.

A explicação da omissão do elemento masculino humano na criação e geração da vida, tanto na mitologia indígena quanto em outras sabedorias  primevas, era o desconhecimento do papel do homem na geração da criança, além do profundo respeito e reverência pelo sangue menstrual que, ao cessar “milagrosamente”, se transformava em um filho. Ou seja, era unicamente do nosso sangue que a vida se fazia, ele era o sangue da criação e nosso sexo de onde ele vertia podia ser visto como um altar sagrado…

Somente pela interferência dos colonizadores, povos de matiz patriarcal,  pela maciça difusão de tal visão de mundo, que o homem assumiu um papel preponderante. E ainda, talvez exatamente pela valorização desta visão eles literalmente gozam de mais liberdade que as mulheres para amar e adorar seu corpo e seu próprio sexo, lhes sendo mais naturalizado que incluam inclusive as secreções e manifestações deste em seu cotidiano como algo bem quisto e normal, sem tanta repressão ou constrangimentos que são impostos às mulheres quando tratam de questões semelhantes, aparentemente até banalizadas.

Ou seja, hoje o sangue que nos jorra deixou de ser considerado algo sagrado ou mesmo natural para se tornar o sangue pelas feridas adquiridas em séculos de limitações e julgamentos danosos a nós mesmas, e sobre os quais muitas vezes crescemos sem nunca questionar. Quando nascemos mulheres lhes  sentimos as dores, de um modo ou de outro, mesmo quando preferimos ignorar sua existência ou fingir que injustiça tal faz parte da “ordem natural” das coisas.

Num exemplo talvez pequeno dos absurdos causados pela aversão que nós mulheres somos ensinadas a ter por nosso próprio corpo e qualquer manifestação que dele advém, quantas propagandas de absorvente por exemplo exibem “nosso sangue azul” quando o sabemos muito bem ser ele vermelho vivo ou por vezes emagrecido como única variante de cor. E muitas mulheres sequer sabem que inclusive os odores desagradáveis advém de como é feita sua retenção, e não necessariamente do líquido em si. Isto porque falar dele abertamente ou vê-lo como de fato é se tornou um tabu, após instituída a ideia de que o princípio válido da vida e da própria sexualidade seria unicamente fálico. 

Hoje o culto ao Sagrado Feminino  resgata esta tendência à se honrar e reverenciar o sangue mensal como um dom e dádiva feminina, e não algo nojento e vulgar como nossa cultura majoritária nos prega e faz acreditar. Movimentos sociais também se aliam trazendo uma  mudança no modo como a mulher lida com seu próprio corpo, ao menos para aquelas que desejam repensar sua relação de amor consigo mesmas e aderir, apesar de a repressão sempre existir, seja aberta ou velada.

Na cultura majoritária somos ensinadas a esconder nosso natural sangramento, nos constranger com ele, não falar, o considerarmos algo obceno ou sujo. E do modo como ele é tradicionalmente tratado se torna de fato uma secreção retida e desagradável. Contudo através de novos métodos de lidar com a menstruação a mulher cada vez mais pode passar a não vê-la como algo  imundo ou desagradável e sim algo natural que a acompanha pela maior parte de sua vida, e assim amar mais à si mesma e às expressões tipicamente femininas de sua intimidade, sendo obviamente uma das mais marcantes o seu sangue.

Sangramos e não morremos… Temos o sangue sempre a nos enfeitar as coxas, como cita o poema de Conceição Evaristo, ciclo a ciclo,  em um eterno rio vermelho que corre para  o infinito. Onde nos aguardam nossas ancestrais que como nós se renovavam desta forma a cada mês… Apenas isto já seria algo sagrado por si só, sangrar e não morrer em si já compõe um grande mistério da feminilidade até hoje, apesar de todos os argumentos e investigações científicas que explicam racionalmente o fato… Há espaço suficiente para as duas visões sem que uma contradiza totalmente a outra, ao meu ver. Fora o fato de que lidar de modo agradável e natural com algo que estará sempre conosco nos confere bem estar.

Podemos dizer que nascemos todos e todas do sangue, afinal no útero acabamos por nós alimentar dele, o de nossas mães, e quando não se faz no ambiente uterino a vida ele escoa de nossos corpos com destino de voltar para a terra, a Mãe Maior que a todos acolhe, onde um dia todos e todas viremos a nos unir após o fim  de nosso ciclo carnal.

O nosso corpo, ferramenta fundamental para cumprimos tal etapa, ainda nos advém através do sangue feminino que nos abriga e acolhe em nossa primeira morada terrena. Apesar de toda visão patriarcal moralista e depreciativa, algo tão importante ainda merece sim ser honrado e respeitado. Não somente no dia  oito de março mas a cada uma das doze vezes ao ano em que se faz presente.