[CONTOS] Manchas de Sangue

Neste DIA MUNDIAL DOS VAMPIROS um pequeno conto para gelar o sangue…

Designer de capa ÉRICA FARINAZZO

 

Ele caminhava na estreita rampa, um tipo de passarela que margeava por fora todo o prédio de quatro andares, vinha do terraço até o térreo.
O jovem caminhava com seus fontes de ouvido despreocupado e indiferente ao fato de que ninguém parecia descer por ali àquela hora da madrugada.

Aquelas rampas continham um ar sinistro pois não se via mais nada além da passarela de concreto acinzentado e as grades quadriculadas de ambos os lados, por metros à fio de cima a baixo, fazendo aquela estrutura assemelhar-se de algum modo à uma gaiola.

Então de repente, olhando para o chão o moço viu algo estranho: parecia que manchas de sangue já ressecadas tingiam o cimento… Ao menos era o que aquelas manchas pareciam na parca luz artificial de um poste próximo, que  iluminava sutilmente… Seriam mesmo manchas de sangue?

Escutou passos atrás de si, interrompendo seus pensamentos, e decidiu não ficar ali para descobrir. Tratou de descer com mais velocidade, embora não corresse. O som de uma banda de rock oitentista qualquer estava ali naquele momento nos seus ouvidos para tentar tranquiliza-lo.

Apalpou o aparelho pendurado no bolso grande de trás da calça jeans… E se aquela fosse a última música que ouviria na vida? Seu sangue gelou por um segundo…
Mas então pensou… Quanta besteira! Era apenas mais alguém descendo a passarela como ele. Não tinha o que temer, certamente estava imaginando coisas e se impressionando à toa.

Um trovão ribombou, ele parou por um instante e riu do susto de levou. Mal tinha notado que o tempo mudara… Se sentia dentro de um filme de horror da mesma época das músicas que lhe invadiam os ouvidos pelos fones.

Mas se choveria logo, precisava se apressar… Ainda ouvia os passos, olhou para trás, mais confiante. Viu um homem aparentemente de sobretudo, que caminhava devagar, e se aproximava.

Na certa um gótico de cabelos longos qualquer. Pois podia ver já de certa distância como era pálido. Sabia como aqueles tipos adeptos de tal subcultura tinham fama de odiar o sol… Tal como vampiros. Estranho pensar naquele detalhe de repente…

O gótico era bem mais alto, e apesar de esbelto o intimidou pensar que o seguia ali. Afinal, sabe-se lá o que poderia estar trazendo sob aquela vestimenta longa e escura… Talvez nada, mas a mente estava fértil pela desconfiança.
Estava numa das curvas da passarela e pensou ficar parado e deixar o ruivo cabeludo passar para sua frente, apesar do espaço estreito. Se sentiria mais seguro talvez, se o fizesse…

De repente sentiu um arrepio e o sangue chegou a lhe gelar mais uma vez, pois notou que o homem de sobretudo não estava mais lá… Quando ele o ultrapassara? Teria de te-lo visto… E ainda daria para ve-lo se tivesse voltado em direção contrária.

A confusão mental se instalara… Olhava para as grades laterais que fechavam todo o passadilho buscando respostas, pois seria impossível aquele estranho homem ter pulado…
Quando repentinamente viu um morcego dar um vôo rasante quase roçando sua cabeça. Ficou um pouco ofegante com o susto. Riu e esfregou os olhos por alguns instantes, só podia estar imaginando coisas.

Olhou para a parte mais alta da passarela e o coração saltou pela boca. Um novo susto maior chegou a lhe fazer suar frio, pois viu que o cabeludo estava lá novamente,  como se houvesse voltado de lugar nenhum, parado a observa-lo. Assustadoramente parado…

Pensou falar com ele, mas aquela figura alta e pálida lhe parecia mais soturna que os outros góticos que já conhecera. Se é que ele era um! O calafrio na espinha ao olha-lo nos olhos fez dispar um alerta interno de sobrevivência…

No Time to Cry, da banda Sisters of Mercy, era a música que tocava em seus ouvidos agora. Mas já não conseguia mais lhe tranquilizar, ele sequer prestava atenção às músicas.

O estranho homem soturno apenas o olhava nos olhos, sem expressão facial alguma. Tentou transpor a curva fechada da passarela e correr, mas tropeçou desastrosamente eu alguma coisa.

Ao ver o que era tentou gritar, mas o vampiro chegou até ele tão rápido que mal teria tempo para chorar se quisesse… A mão gélida o agarrou sem esforço pelo braço…

“Eu teria força suficiente para quebra-lo se tentares fugir…” Foi o aviso que ouviu alto e claro em sua mente, ainda que a figura sequer movesse os lábios para falar.

Os dentes pontiagudos logo se enterraram em sua garganta sem suavidade alguma, e a mão geladíssima calava sua boca para que não produzisse nenhum som.

Ao sentir aquela dor aguda na jugular sabia que tão logo estaria tão morto quanto aquele corpo inerte no chão, que o derrubara… E que provavelmente tingira antes o chão com as manchas de sangue.

No dia seguinte um famoso juiz descobria a morte de seu filho, mas nada poderia fazer apesar de todo seu poder e influência, pois para uma morte sem explicação como aquela noticiar a verdade dos fatos mancharia sua reputação, mais até do que as poucas gotas do sangue de seu rebento que mancharam o chão daquela maldita passarela. Uma vez que  todo o resto do rubro líquido daquele seco cadáver parecia ter simplesmente desaparecido.

§§§

O conto acima foi baseado na foto abaixo, tirada na tal passarela que de fato EXISTE… Pensei nestas cenas ao passar por lá e tirar esta foto cerca de um ano atrás. Se era mesmo sangue ou não, nunca saberemos…

O chão foi pintado um mês depois que a foto foi tirada…

E… Sim, Solfieri milagrosamente sem a Lua hoje, e neste conto solo dele vemos que nem com todo mundo a sua mordida é tão prazerosa ou sutil quanto com ela… Então, enfim deixo-lhes um: FELIZ DIA MUNDIAL DOS VAMPIROS! 

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“Parece que estamos condenados ao realismo”

A frase brilhante que dá título a esta postagem foi dita pela autora Argentina Mariana Enriquez – autora da coletânea As Coisas que Perdemos no Fogo (2016) e do romance Este é o Mar (2019)  –  durante uma conversa para a revista Galileu, enquanto diz também que lamenta o fato de narrativas fantásticas ou imaginativas, serem consideradas por muitos como “coisa de crianças ou adolescentes”. Nas palavras dela: “Tenho a impressão de que, como adultos, somos incitados a não pensar também com a imaginação; parece que estamos condenados ao realismo. É uma limitação que nos impede refletir sobre a vida a partir de outros ângulos. Para mim, a literatura imaginativa ajuda a pensar a realidade”.

Fiquei profundamente encantada não apenas com a visão da escrita que Mariana aparenta possuir, mas também com o modo como demonstra ver a vida através de suas palavras e do modo como defende que a imaginação seja algo que nos acompanhe durante toda a vida. Concordo plenamente com ela, até porque costumo defender como me parece ocorrer um processo psicossocial que me causa certo incômodo e se acentuou visivelmente nas últimas décadas: o desencantamento do mundo, ao qual teorias – como as de Weber, com sua “jaula de ferro da razão” –  já pronunciavam. A imaginação fantástica parece estar sendo eliminada nas mentes humanas e vai sendo substituída por uma racionalidade cada vez mais absoluta e inflexível, onde nem nas histórias se pode misturar fatos extraordinários com a vida cotidiana sem que obrigatoriamente se busque um público adolescente ou infantil, tal como vejo acontecer com frequência na literatura brasileira contemporânea – onde são ousados os que fogem a tal lógica –  e me parece ser algo criticado nas falas da argentina.

A matéria da Galileu afirma que afirma a escritora nasceu em 1973, no subúrbio de Buenos Aires, e cita as suas personagens como mulheres “fortes e loucas”, dizendo chamar a atenção o fato de sua escrita de horror possuir sempre personagens femininas como narradoras e protagonistas. A própria autora as chama de “vozes fortes, verossímeis, muito potentes e que dão medo”, e destaca o tom alucinado em uma personagem de uma das autoras que lhe serviu de influência. Embora, cá entre nós, esta que voz fala considere que aquilo que pode identificar uma personagem feminina como louca, alucinada ou má seja algo de cunho por demais subjetivo diante da racionalidade majoritária que costuma não permitir nenhum deslize para fora da linha da normalidade, seja à mulheres ficcionais ou à nós reais, como facilmente se observa no cotidiano.

Mariana também fala sobre seu processo criativo e as imprevisibilidades do mesmo. Sabe, aquelas coisas não planejadas na história, mas que surgem por intuição ou inspiração quando se vai redigir uma narrativa? Tal qual todo escritor ou escritora de verdade sabe o quão gostoso é quando acontece. Ela destaca ocasiões em que isto lhe aconteceu e ainda diz que sente uma certa falta de vozes femininas na literatura de seu gênero literário, principalmente porque até as suas autoras favoritas que escreviam terror ou mistério preferiam utilizar protagonistas masculinos, ao que ela sentia como uma forte limitação do ponto de vista técnico.  Enfim, suponho que nada melhor do que as próprias falas da autora para mostrar porque me admirei ao ponto de estar agora postando sobre isto… Não deixem de conferir na totalidade a matéria original. mas vou me permitir reproduzir aqui parte do texto com as falas de Mariana:

*“Gosto muito de usar a intuição ao escrever. Ou seja, de ir trabalhando e quase que não pensar tão claramente, e nesse processo perceber o que realmente me dá medo. Em A Casa de Adela, por exemplo, quando as crianças entram no local e encontram as estantes cheias de dentes espalhados; eu não sabia o que elas veriam. Também não sabia que as luzes da casa estariam acesas. Nada foi planejado, isso apareceu enquanto eu estava criando a história”.

*”Estranhamente, o horror é o que mais se aproxima da nossa realidade. A sensação de que a realidade se dissolve, se torna estranha e sinistra, tão característica dos relatos de horror, pode ser facilmente reconhecida na nossa vida cotidiana”.

*”Citando Salem’s Lot (1975), de Stephen King, a autora argentina afirma: “uma história de vampiros, mas também uma narrativa de cidades pequenas, das figuras excêntricas que geralmente vivem nesses locais, entre outras coisas que conseguem colocar, na ficção, uma experiência, uma sensação muito cotidiana”.

*”…Então, as vozes das mulheres estão menos registradas na literatura, são como um sub-registro. Para mim, isso era uma limitação técnica, o fato de só conseguir escrever com narradores homens — os textos saíam mais facilmente”. (…) “E aí surgiram essas vozes fortes, verossímeis, que me pareceram muito potentes. E que dão medo. Aconteceu quase que naturalmente, esse registro da mulher, e os personagens masculinos começaram a perder força”

*“Nos meus contos, há questões políticas de hoje e do passado — por exemplo, o desaparecimento de corpos, algo recorrente durante a ditadura argentina. Mas não penso tanto nisso quando escrevo”, explica a escritora. “Sim, são temas que me interessam pessoalmente — o racismo, o desamparo das pessoas que estão à margem do sistema etc —, mas não me interessa nada o tratamento desses temas a partir do realismo. Principalmente em literatura. Porque me parece que há profundidades — inclusive para mim mesma, como autora — às quais a ficção de cunho realista me impede de chegar”.

Dia Mundial do Rock com FROGSLAKE

Hoje é um dia especial para todos roqueiros, roqueiras e simpatizantes do estilo. Ano passado, quando a data caiu numa sexta-feira treze,  fiz uma matéria sobre isto, mas hoje é claro que também não podia passar em branco. Então falarei de uma banda que representa bem a atitude Rock em sua essência e celebra o rock em seus shows cotidianos e em suas músicas de modo especial…

Venho aqui direto do mundo da música underground para trazer mais uma banda nacional alternativa que merece destaque: FROGSLAKE…

Estava com uma amiga em um  festival de bandas autorais chamado Estação Rock quando conheci a banda e ela logo me chamou a atenção.

Como os vídeos espalhados pela matéria demonstram a banda traz certo ar nostálgico para quem um dia iniciou no rock com sons como Nirvana dos álbuns Nevermind e From the Muddy Banks of the Wishkah ou Silverchair de álbuns como Frogstromp e Freak Show, entre outras classificadas nos anos 90 como pertencentes ao estilo Grunge, e ainda conhecidas e mais divulgadas  até meados de 2000. Embora a banda não se limite a copiar, apresentando ao mesmo tempo uma personalidade própria.

Para esta que vos fala, (que sempre esteve culturalmente focada nas décadas de 80 e 90 tanto na música quanto em outras vertentes, apesar das exceções) o som da Frogslake conquistou logo de cara por parecer exatamente trazer um certo resgate ao estilo Grunge e ao mesmo tempo fazendo tudo isto com um jeito próprio e identidade.

Me senti ouvindo das bandas citadas automaticamente, só que com som autoral e que ao mesmo tempo se distingue das mesmas… Um misto entre o passado e o presente, talvez exatamente por isto gostei tanto. Uma vez que me lembrou muito da rebeldia e atitude, outrora tão comum ao estilo rock, que agora parece tão mergulhado no marasmo e conformismo ao meu ver, ao menos fora do mundo alternativo.

Posteriormente estive em um festival de bandas na baixada fluminense intitulado Rock na Biblioteca, ao qual já frequentei várias edições, e mais uma vez a Frogslake estava lá… E novamente me trouxe a tona o clima do rock que conheci na infância, quando eu ainda não tinha youtube, nem podia ir à shows e nem sabia que o mundo da cultura underground existia. Para as pessoas presentes no festival comigo sei que o som da banda também faz relembrar aquele rock de atitude do qual a gente sente falta no momento presente.

 Para alguns a dolescentes  que estavam lá notei que também lhes chamou a atenção e talvez pode abrir as portas para que eles se viciem pelo som  e permaneçam nele por toda a vida exatamente como ocorreu comigo na época das bandas que são influência para a Frogslake. Qualidade, atitude e sonoridade viciantes estarão garantidos enquanto a banda existir.

E mais recentemente registrei no palco a Banda FROGSLAKE novamente, em uma matéria feita sobre um festival duplo que a banda participou no Parque de Madureira/Rocha Miranda, onde a banda marcou presença mais uma vez com seu modo nostálgico-cativante.Onde apresentavam um som vibrante e característico cantado em inglês que incentivou a alguns dos presentes na platéia a fazerem o já conhecido “mosh” – outrora também chamado de “roda” ou “roda punk” – frente ao palco durante a apresentação da banda, fazendo jus ao nome do evento e nos transportando de fato no tempo para quando o Rock era mais curtido desta maneira, demonstrando que até o público estava entrando no total clima do som que os embalava.

Ao conversar com a banda para reunir as informações mais técnicas que se seguem, eles me disseram que de fato tocam por amor tentando deixar um legado por quem os influenciou…

Segue abaixo o release para que conheçamos melhor a banda em si:

Banda: FROGSLAKE Gênero: Rock Alternativo / Grunge

Localidade: São Gonçalo / Rio de Janeiro / Brasil

Integrantes: China (vocal/guitarra), Alessandra (baixo), Pletz (guitarra) e Eduardo (bateria).

Influências: Sons dos anos 90.

Site: www.frogslake.com

Redes sociais:

www.facebook.com/frogslakepage

www.instagram.com/frogslake

https://www.youtube.com/channel/UCQmgOqR8lv6QUCozorECQAg

A banda FROGSLAKE apresenta o estilo rock alternativo com uma identidade própria e marcante, tendo como grande influência o som do movimento Grunge (Seattle Sound) e bandas que fizeram parte do cenário musical dos anos 90. Integrante do underground do Rio de Janeiro, a banda está na estrada desde 2005.

O álbum de estreia intitulado “Inside my Mind” teve uma boa repercussão por parte do público e da mídia, ganhando divulgação em web rádios, principalmente em São Paulo e em outras regiões do país, bem como resenhas em blogs afins, inclusive no exterior, como no Seattle Sound da França e revistas como a Skrutt Magazine da Suécia. Uma boa divulgação deste EP foi durante um show do Thurston Moore (vocal e guitarra do Sonic Youth) no Circo Voador (RJ), quando ele comentou sobre o cd no palco e até incluiu o nome da banda no meio de uma de suas músicas no show. O próximo álbum será lançado pela gravadora DNMT R ecords de Nova Iorque com 12 faixas, algumas que já rolam nos shows, como Can I do it?, Escape e Give me back e outras faixas inéditas. Este trabalho apresentará uma proposta um pouco diferente do anterior, que contará com um som mais forte e despejo de efeitos. Em breve, lançamento do vídeo clipe oficial da faixa Escape.

Itunes: https://goo.gl/AW3gYt Spotify: https://goo.gl/n6TI5b Deezer: http://goo.gl/5w4oAM Amazon: http://goo.gl/voCNnn GooglePlay: https://goo.gl/xFL9jY

[CONTOS] A Noiva do Morto – Continuação

Parte final do conto inspirado na música “A noiva morto”, da banda Gargula Valzer (de quem ainda pretendo fazer matéria futura) e no conto/capítulo “Solfieri”, parte integrante do romance clássico  Noite na Taverna, do autor Álvares de Azevedo.

– texto do conto por Fernanda Miranda

 

A noiva do morto - versão 3
Designer de capa: ÉRICA FARINAZZO

 

Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim: rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela como o noivo despe a noiva.”

(Álvares de Azevedo)

 

 

Luana estava de fato resignada nos braços da morte apesar do fato que a ansiedade crescia, enquanto  ela ia perdendo as forças, no que poderiam ser seus últimos momentos de vida. Então na sua mente naquele instante, persistiram em retornar vividas as imagens e os detalhes daquele estranho sonho de dias atrás novamente…

Via candelabros negros e silhuetas mórbidas, em uma caixa de ossos sentia o forte cheiro de incenso de ópio, que curiosamente reconheceu como tal. Então, ainda lembrando-se do sonho, deu-se conta de que nele tudo aquilo estava num local semelhante a uma capela funerária, iluminada apenas pelas muitas velas.

Uma serenata trágica e sombria tocava no ambiente, embora não pudesse saber de onde vinha a música pois o local parecia deserto… Ao se aproximar do altar repentinamente via um corvo sem olhos pousado onde deveria haver uma imagem sacra ou cruz, próximo ao animal reconheceu escaravelhos que passeavam pela face pálida de alguns querubins de mármore, que agora identificava serem muito semelhantes aos das tumbas do cemitério.

Na mesa do altar jazia uma taça de vinho ao lado de um caixão… Quando finalmente se aproximou a passos receosos viu que a figura ali deitada possuía rosas pelo corpo e estava coberta por um véu. Ao estar mais próxima da taça notou que aquilo não era vinho, e sim sangue…

…E quem ocupava aquele caixão, ocultada parcialmente pelo véu e pelas rosas, era ninguém menos que ela mesma! Neste instante Solfieri aparecia, a puxava para si com os olhos em brasas e as presas à mostra, e então o sonho findou quando Luana acordou…

Havia preferido pensar que aquele sonho não significasse algo relevante, uma vez que era composto por elementos sombrios tão específicos que talvez fossem pertencentes a alguma das poesias ou músicas góticas que tanto apreciava. Agora sabia que aquilo era um presságio de morte, e sentia-se um pouco ingênua por não querer crer até ser tarde demais.

++

De volta à realidade, Luana escutava as batidas do próprio coração como se pulsassem em todas suas veias, com as presas de Solfieri ainda fincadas em sua carne. Escutava nitidamente o ruído que ele fazia ao sugar com gosto. Não sabia quantos minutos haviam se passado. Mas parecia não sentir o chão abaixo dos pés… E já não sentia mais tanta dor.

As mãos da moça agarraram o sobretudo do vampiro com força… Tentava puxar ar pelos pulmões… E em instantes quando soltou outro gemido – desta vez sem saber se era apenas de dor ou algo mais – sentiu o braço dele apertar seu corpo pela cintura com força, e seus pés pareciam estar realmente fora do chão.

Agora ela ofegava, percebia que não sabia mais deduzir se aquela sensação era dolorosa, prazerosa, ou ambas… Sentia o corpo desfalecer e um aperto tomava seu peito sem pedir licença… Seguido de uma sensação de alívio, por mais contraditória que ela parecesse.

Sentia os próprios batimentos mais lentos a cada minuto… Não faltaria muito agora… E entre a consciência e a inconsciência imagens e sensações distorcidas invadiram suas memórias… Então era mesmo verdade que no derradeiro último suspiro o que sentia era paz? Sim, sentia uma paz acolhedora agora.

Memórias remotas se volveram na mente daquela jovem moribunda, e ela notou que aquela não era a primeira vez que sentia algo assim… Então, ela puxou o ar com toda a gana, talvez pela última vez, e num volume inaudível para ouvidos humanos, antes do fim ela murmurou com sotaque semelhante ao de seu algoz, palavras advindas de um passado secular…

-Sou tua Micaela… Não esqueça-me… Por favor!

Solfieri arregalou os olhos, e então eles já não estavam mais incandescentes. Surpreendera-se com o que ouvia e retirava a boca do pescoço de sua presa. E ao invés de soltar o corpo inerte que segurava no chão, como lhe era de costume ao matar, ficou pensativo por alguns instantes, segurando a moça já desfalecida. O gosto do sangue quente ainda na boca e a sensação inebriante que aquilo trazia…

Sentiu que tudo aquilo era muito familiar… Já a escutara falar assim antes. Agora sabia que não era ao acaso que o odor e sabor daquele sangue o haviam encantado tanto desde o primeiro instante… E o faziam sentir certa nostalgia… Não quisera acreditar em tal possibilidade, preferira pensar que ela era estapafúrdia demais para acontecer com ele, mas agora ali estava uma prova.

Olhou para a face de Luana em seus braços, a via nitidamente com sua visão noturna, apesar da penumbra cemiterial. A pele antes morena agora estava quase tão pálida e fria quanto ele mesmo, que agora possuía temporariamente o corpo  morno, após beber o fogo líquido que aquela humana trazia nas veias. O pescoço dela portava agora sua marca característica…

Finalmente a loucura pela qual fora acometido havia passado… Em outras circunstâncias seria tão bom sentir o corpo aquecido por aquele líquido sagrado… Sobretudo aquele advindo daquelas veias. Tão fervente, tão doce, tão viciante… O sangue de Lua… Apaixonara-se perdidamente por aquele sangue desde a primeira vez que ela lhe dera por livre e espontânea vontade. Aquele sangue continha algo próprio, algo único! Bom, no início pensava querer dela somente isto… Mas com o passar das noites via que não.

Tantas lembranças seculares o invadiam agora… Ele havia escutado as palavras que ela acabara de balbuciar… E uma destas lembranças sobrevinha nítida em sua mente naquele momento… Já havia escutado aquelas palavras antes… Já vivenciara aquela situação… Sim… Lembrou-se…

Ele próprio fora o algoz dela em existência pregressa, nas terras do velho mundo. Quando ela fora fisicamente outra e se chamava Micaela… Mas sua alma era a mesma, hoje chamada Luana… E tal qual seu sangue também possuía propriedades semelhantes, uma vez que jaz nele a parte líquida da alma. Sentiu-se tolo por não te-la reconhecido ainda. E pensar que ela lhe pedira para não ser esquecida…

Não fora aquela uma morte justa há séculos atrás. Causara desgraça sem tamanho à pobre Micaela na época. E se surpreendera ao se importar com isto pela primeira vez na ocasião quando finalmente a teve sob seu julgo, como nunca se importava com ninguém. E lá ao longe no tempo quando ela percebera que ia morrer, apenas entregara-se…

Entregara-se a ele… Que então passara a sugá-la do modo mais suave que conseguiu, já sabendo que a mataria. Dando-lhe alguma dignidade. Dando-lhe talvez algum… prazer? Exatamente como fizera agora novamente…? E a fizera reviver aquilo. O momento de sua morte em outro século, em outra vida. E repetir as mesmas sensações… Catalisadas por ele mesmo… E dizer novamente as mesmas palavras.

++

Agora a segurava deitada em ambos os braços. E falava com ela. Enquanto andava lentamente com ela pelo cemitério, desfalecida e inerte. A saia negra e rendada tal qual os cabelos pendiam, enquanto ele  contemplava a face feminina aparentemente serena, embora lhe notasse o resquício de lágrimas…

Pensou no óbvio, parou segurou-a pelas costas com apenas um braço e mordeu o próprio pulso, tentando fazer seu sangue imortal verter nos lábios dela… Mas logo concluiu, tal qual a última vez há tanto tempo atrás, que já parecia tarde demais para esta opção. Aqueles lábios estavam totalmente frios e cerrados.

-Tu nunca me temeste! E é por isto que terminaste assim… E pensar que graças a ti consegui voltar a este mundo…

Olhava para ela. Mal acreditava, que justo ele, sempre um assassino compulsivo, como se matar fosse a coisa mais banal e cotidiana do mundo, agora sentia aquela sensação incômoda. Se tivesse um coração vivo e pulsante no peito ele estaria apertado naquele momento. Mas a certeza era que ele não desperdiçaria aquele sangue sagrado com lágrimas.

-Micaela… Ou melhor… Luana… Lua… Que apreendeu a odiar sua própria espécie, antes mesmo mesmo de encontrar-me… Que prefere te misturar com demônios… E amar um demônio! Sim, sei que tinhas amor por minha pessoa! Tal como sei que tu mesma procuraste tal destino. Nas duas vezes… Mas eu fui um tolo! Por  permitir…

E naquela noite sentira aquilo que o deixava confuso, e desorientado até mesmo em suas falas e  pensamentos: Arrependimento. Por tomar de Lua a vida como tomara de Micaela… Quando falhara ao resistir àquele maldito frenesi. Ainda caminhava com a moça desfalecida nos braços enquanto pensava em tudo aquilo. Tentava se comunicar mentalmente com ela, como às vezes fazia… Mas também era em vão.

Haviam enfim saído do cemitério e agora ele a havia colocado deitada num banco de praça que ficava do outro lado da rua, aparentemente deserta naquela hora tardia. Se ajoelhou diante dela naquela madrugada. Passava de leve a mão fria sobre o rosto da moça inconsciente enquanto a velava.

Sabia que se ela estivesse acordada e de fato em condições de corresponder, jamais cederia ao seu orgulho e estaria demonstrando tudo aquilo. Jamais estaria desabafando do jeito que estava prestes a fazer. Jamais assumiria uma fissura tão quente e profunda em seu frio coração morto…

-Que flagelante maldade fiz contra ti, minha querida! Matei-te uma vez… Quase morreste por causa de minha pessoa uma segunda… E agora novamente! A terceira! Não mereces… Não mereces meu flagelo! Sei que gostas de servir-me de teu sangue, tanto quanto gosto de toma-lo!

Sorriu de leve ao dizer tais palavras, um sorriso triste  já com gosto de saudade,  depois ficou sério novamente. Os longos fios ruivos alcançavam o pescoço da moça enquanto ele se reclinava sobre ela…

-…Mas não mereces isto, minha Lua! Não mereces a morte! Não mereces que eu tome-te a vida! Não mereces que eu me aproveite de ti! Ainda que me disseste certa vez que para ti morrer seria libertar-se… Não sei se posso concordar…

Os dedos longos e pálidos agora escorregavam pela testa da moça, descendo por seus cabelos, passando pela grossa mecha branca entre a cabeleira negra e sedosa… Colocou carinhosamente alguns fios negros sobre a marca de suas presas deixadas no pescoço dela. Os dedos frios estavam impacientes por não encontrarem naquele corpo nenhuma reação… Nenhum movimento. Nenhum calor. Tanto nas veias quanto na pele antes cor de barro e fervente.

E agora, tão gelada e alva! A face feminina tão fria e pálida, quase quanto sua mão que nela encostava… Era difícil para um demônio como ele admitir, mas já não buscava mais dela somente aquele sangue delicioso, ou conhecimento daquele mundo novo, ou um dia talvez a posse de seu corpo…  Realmente temia que ela não acordasse mais. Falava agora em tom suplicante, embora sua voz prosseguisse firme…

-Ô minha querida! Acorde! Abra os olhos, meu doce! Não morreste antes… Por que agora? Não podes morrer assim de novo… Me trouxeste cá, não lembras? E fostes valente para sobreviver naquela noite… Se não estais morta, por que então ficas como se estivesse?

-Podemos fazer alguma coisa? O que aconteceu…?

-Ela está bem?

As vozes repentinas fizeram Solfieri se sobressaltar… Humanos… Dois homens e uma mulher. Vestiam sobretudos como o seu. Eram certamente daqueles que caminhavam pela madrugada, vestiam sempre roupas escuras e maqueavam-se para imitar sua espécie. Lua lhe falava deles. Ela mesma os admirava, e almejava ter amigos como eles. Somente por isto resistiu ao impulso de silencia-los com a morte.

-Esta é minha noiva que jaz desmaiada… – foi tudo o que Solfieri conseguiu dizer sem sequer encara-los…

Aparentava o jeito arisco e os olhos ferozes de sempre, embora não estivessem rubros. Não queria matá-los naquele momento, pois tinha algo bem mais importante para ocupar-se. Contudo se eles se demorassem a seguir seu caminho, o faria.

Embora houvesse aprendido com Luana que aquele tipo de humanos era quem não precisava matar, ainda que deles bebesse. Pois,  segundo ela, eles o respeitariam, desejariam, e alguns até idolatrariam, se soubessem o que ele era. E lhe dariam sangue de bom agrado, como a própria Luana fizera várias vezes.

No entanto não queria dar-lhes conversa naquela noite. Todavia mal sabia que o trio havia parado ali por escutarem suas últimas palavras à moça deitada no banco e por notarem a tristeza em seu falar e em seus gestos ao não conseguir reanima-la…

-Sei como é! Mas não esquente tanto a cabeça. Vai passar! Nossa namorada também já ficou muito mal assim uma vez… Com meia garrafa de Contini…

-Eu eu não sou tão fraca! Foi uma garrafa inteira!

O segundo rapaz do trio apenas olhava para Solfieri, enquanto este não dava atenção alguma ao diálogo. Algo nele lhe dava calafrios na espinha… Um alerta interno lhe dizia que não era muito seguro continuar aquela conversa. E sequer imaginava o quão certa estava aquela intuição. Mais que depressa abriu a mochila, tirou de dentro uma pequena garrafa de plástico, aparentemente nunca aberta, e ofereceu ao estranho homem ajoelhado.

-Isto é água tônica! É ótimo para bebedeiras… Levanta até defunto às vezes! Dê a ela assim que ela conseguir beber…

Solfieri apanhou o frasco esverdeado meio desconfiado, aceitou-o quando ouviu o rapaz dizer que “levantava defunto”… Levara a expressão ao pé da  letra. O rapaz então mais que depressa pegou discretamente o companheiro e a companheira pelo braço e buscou tirá-los dali. A moça do trio ainda manteve os olhos fixos no estranho casal antes de se distanciarem, e inocentemente sorriu simpática para o estranho cabeludo despedindo-se.

-Boa sorte! Ela vai melhorar…

O vampiro realmente esperava que a humana desconhecida tivesse razão. Em minutos eles se distanciaram. Logo que estava à sós com sua humana novamente voltou a encara-la. E a conversar com ela novamente, mesmo que ela não lhe pudesse ouvir. Nem saber o quão carinhoso ele podia lhe ser ao se dirigir à ela numa situação como aquela…

-Será que isto lhe devolverá os sentidos, minha Lua? Será que consegues beber…?

Sabia bem que, ao menos para a segunda pergunta, a resposta era não. As esperanças eram falsas, não adiantava mentir para si mesmo. Aquela pele macia e sempre tão quente, de onde vertia o sangue que mais parecia fogo líquido quando lhe tocava os lábios, estava agora mais gélida que a sua. Uma vez que ainda possuía o corpo aquecido por aquele líquido escarlate que lhe era sagrado.

Mas que graças a sua própria maldade e imprudência não poderia mais provar. Sua “noiva” estava morta por suas próprias mãos. Ou melhor, suas presas. Novamente! E antes mesmo de chegar a ser de fato sua noiva, antes mesmo de ousar deixar de lado seu orgulho e dizer a ela o que sentia por sua pessoa. Aquela pessoa que agora era somente um corpo frio e de pele acinzentada em seus braços.

Precisava levá-la dali. Para longe do bulício dos curiosos. Até porque em breve o sol nasceria e o tornaria cinzas se ficasse… Colocou a pequena garrafa que lhe fora ofertada no bolso do sobretudo. Acariciou mais uma vez a face de sua querida noiva morta. Tomou-a nos braços com carinho novamente e usou de velocidade vampirica para cruzar as ruas com ela como uma sombra, sem ser visto por mais ninguém.

 

 

“Rosas pelo corpo, coberta de véu, a noiva do morto”

(Gargula Valzer) 

 

Que levas aí?

A noite era muito alta, talvez me cressem um ladrão.

É minha mulher que vai desmaiada.

Uma mulher! Mas essa roupa branca e longa? Serás acaso roubador de cadáveres?

O guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronteera fria.”

(Álvares de Azevedo)

 

 

[CONTOS] A Noiva do Morto

O conto a seguir foi inspirado na música “A noiva morto“, da banda Gargula Valzer (de quem ainda pretendo fazer matéria futura) e no conto/capítulo “Solfieri”, parte integrante do romance clássico Noite na Taverna, do autor Álvares de Azevedo.

– texto do conto por Fernanda Miranda 

A noiva do morto - versão 2
Designer de capa: ÉRICA FARINAZZO

 

“Derrama no corpo da donzela esse sangue
Rito imortal da vida daqueles que são eternos”
(Gargula Valzer)

 

 

Luana corria… Em aflita fuga, corria. Seguia desviando por algumas aleias para buscar caminho entre as muitas cruzes e estátuas de querubins ao seu redor, quando lembrou de um sonho confuso que havia tido há três dias e simplesmente optado por ignorar… Devia ter dado atenção antes. Mas espantou os pensamentos, pois não tinha tempo para isto.
Encontrou em seu tortuoso caminho, apesar da pouca iluminação, um pequeno mausoléu com uma abertura. Alguns tijolos pareciam faltar. O espaço era suficiente para que seu corpo passasse. Não pensou duas vezes, se espremeu pela abertura e entrou para se esconder. Uma esperança de escapar.
Ali dentro, de um lado e de outro do único abrigo encontrado, via as gavetas de mármore lacradas, onde os caixões estariam e não conseguia ler as datas de falecimento dos ocupantes, devido à escuridão. Mas imaginava que estariam ali há anos, devido à poeira que sentia tomar o local. Corria o risco de juntar – se à eles em breve…
O coração da garota ainda não sossegava no peito, batia rápido e com força. Desta vez pelo medo, já que tentava recuperar o fôlego perdido na corrida. O espaço ali era pouco e abafado, mas aquela era a única chance que poderia ter para escapar do que o destino lhe reservara… Apesar de ter de admitir que na verdade poderia ter sido uma escolha dela mesma. Não sabia bem quanto tempo aquilo poderia levar… E naquele momento relembrava os últimos minutos que a haviam conduzido àquela situação…

++

Minutos antes os dois caminhavam pelo cemitério, local que provavelmente não deveria ser o predileto para um passeio pela maioria das pessoas. Mas para ambos aquele local possuía uma história, e sua essência os chamava para lá de alguma forma.
Ela explicava à ele detalhes sobre os túmulos dos últimos decênios, vinha lhe apresentando constantemente um mundo novo também fora da necrópole, décadas e décadas de evolução e mudanças, que ele perdera porque estivera morto por completo e não pudera acompanhar. Apesar de ela ter nascido somente há duas décadas atrás daqueles decênios enquanto ele dormia.
Não seria problema aprender tudo o que mudara no mundo sozinho, em menos de um mês, talvez uma semana. Mas ele demonstrava interesse em ouvir placidamente ao conhecimento que ela demonstrava ter apesar de sua tenra idade, principalmente perto da dele. Demonstrava saber muitos detalhes daquele que era um cemitério antigo e histórico… Com uma arquitetura clássica que certamente possuía muitas histórias a serem contadas.
Enquanto andavam lado a lado pela necrópole pouco iluminada através da pálida luz do luar, os olhos noturnos dele não sentiam necessidade de mais luz, e os dela já estavam adaptados à parca luminosidade por conhecerem bem o lugar, apesar de serem olhos humanos. Aquele lugar havia se tornado importante na relação que vinha sendo construída entre eles…
O sombrio e pálido acompanhante dirigia à moça morena algumas palavras de modo ameno, e uma ou outra dúvida sobre coisas que ela dizia de vez em quando. Para aquele par aquilo era também um encontro para conversar sobre soturnas amenidades e reforçar o vínculo que já possuíam.
Ele se sentia totalmente a vontade com ela, e ela tinha motivos para sentir segurança com ele. Embora Solfieri não perdesse o jeito um tanto distante e o olhar feroz, que lhe eram características próprias mesmo quando seus olhos não exibiam o brilho avermelhado de seu frenesi.
Contudo ele tratava Luana com gentileza e buscava estar sempre ao seu lado. Gostava da companhia dela, ainda que ela fosse em verdade tão diferente dele. Afinal, eram de espécies distintas, mesmo com tantas afinidades… Ela estava viva e ele… morto.

++

Alguns minutos se passaram e repente ela interrompia o que dizia, pois não obtinha resposta. Estranhou. Luana então voltou-se para Solfieri e percebeu que ele estava mais estranho que de costume… Se reclinava com a mão apoiada em um mausoléu próximo, tal qual um humano fazia quando passava mal. Mas ele definitivamente não era humano e não ficava doente… Ou será que ficava?
Vendo-o respirar pesadamente e quase cair ela se aproximou, por impulso e preocupada, pois pela primeira vez algo nele a deixava assustada! Não sabia o que fazer. Deveria abandona-lo à própria sorte? Ela tentava ajudar e segura-lo… Ainda que soubesse certamente não poder sustentar seu peso com a eficiência que ele a sustentaria nos braços como se fosse uma boneca, se assim o quisesse.
Devido à diferença significativa de estatura entre eles, enquanto ela tentava uma posição para segura-lo os longos cabelos ruivos dele pousavam sobre os dela, que eram negros, lisos e com uma grossa mecha branca como o luar. Os dedos mornos e morenos tocavam o sobretudo que cobria a pele pálida e fria na altura da cintura com alguma dificuldade.
Quando Luana finalmente conseguiu que ele erguesse a cabeça e já passava o braço dele por sobre seus ombros, Solfieri a encarou com os olhos mudando de cor bem ali diante dela… Exibiam um vermelho sangue quase flamejante, que ela sabia o que significava. Pela primeira vez, aqueles olhos lhe davam medo de verdade. Como nunca imaginou que dariam.

-Vai…te…embora, Lua! Te escondas… de mim! Vou…matar-te se ficares! Rápido… Corres… Ide… Longe!

Solfieri falava com dificuldade, como se lhe faltasse o ar que seus pulmões já não precisavam, fazendo esforço sobrehumano para refrear sua sede repentina e a gana assassina que ela suscitava. E nem mesmo assim lhe faltava o sotaque que trazia consigo há séculos. Levava a mão ao peito, curvando o corpo e tentando se desvencilhar de Luana.
Ela o soltava e olhava aturdida, e ficou ali parada e confusa, ainda querendo ajudar. Ele parecia sentir dores terríveis, mas não queria ter de matá-la para sana-las. Não queria fazer isto logo à ela, que há pouco tempo o trouxera de volta da morte letárgica, ainda que ele continuasse sendo um “desmorto”…
A humana entendeu o que acontecia, mas não queria acreditar… Saindo de sua breve confusão mental ela logo fugiu, seguindo o conselho dele, correu o máximo que suas pernas podiam… Sabia provavelmente não ser o bastante diante da velocidade dele quando não aguentasse mais se segurar e viesse em seu encalço, porém nada mais tinha à fazer diante da situação… Havia estudado sobre isto quando estudou como evocar Solfieri, mas não quis crer que enfrentaria tal situação ao vivo… Ou deveria dizer “ao morto”?
Porém não adiantava tentar usar de humor negro para tranquilizar seus pensamentos agora enquanto corria pelo cemitério, tentando uma fuga desesperada e sem saber para onde ir… Sabia que os portões da necrópole estavam distantes demais… Buscar um esconderijo na área dos mausoléus antigos seria mais viável.
A respiração já começava a ficar descompassada quando Lua lembrava inclusive já ter lido algo sobre o que agora lhe acontecia em um de seus livros favoritos, que apesar de ficcional bebera certamente das mesmas fontes mitológicas que ela estudara com tanto afinco já por anos…
Portanto sabia que aquilo ocorrido a Solfieri era como uma loucura que assaltava alguns vampiros quando seu coração morto teimava em querer voltar a pulsar, gerando uma dor avassaladora e um frenesi incontrolável… Assim seu próprio corpo reconheceria que ele já estava morto há séculos na primeira batida do coração que há tanto não batia.
Embora Luana não quisera crer num primeiro momento que os sintomas do vampiro eram sinais reais sabia que, segundo as fontes escritas, aquela espécie de criatura da noite tomada por tal sensação ficava selvagem e totalmente irracional e insaciável! Mataria qualquer um que estivesse próximo, não importando quem fosse, uma vez que ele mesmo corria o risco de morrer de vez e sem retorno se sentisse aquilo e nada fizesse…
Sabia portanto que se Solfieri a pegasse estando naquele estado só a soltaria quando estivesse totalmente sem sangue nas veias – morta… A menos que ele optasse morrer para proteger a ela… Mas teria esta opção? Conseguiria vencer os próprios instintos? Com frequência nem humanos acometidos por necessidades que julgam primordiais o conseguem…
Assim não podia ter certeza alguma do que Solfieri faria diante de tal frenesi. Lhe restava apenas se esconder e confiar na força de vontade sobrenatural de seu acompanhante noturno. Qual dos dois pereceria naquela noite seria difícil prever, mas lhe afligia saber que certamente ela ou ele em muito breve estaria de fato nas mãos da morte.

++

Então, lhe doía o coração pensar que poderia encontra-lo morto definitivamente quando tudo acabasse. Luana estava indecisa, mas o medo mesclado ao instinto de auto preservação vencia sua preocupação. Arranjaria outro modo de traze-lo de volta mais uma vez se preciso fosse…
Embora parte dela pensava se deveria se sacrificar para acabar com a dor dele. Entretanto faltava coragem, e ela tentava sequer respirar alto, para não denunciar onde estava, pois imaginava que ele deveria estar vasculhando o cemitério inteiro a sua procura.
Quando a garota finalmente encontrou aquele mausoléu semiaberto já estava perdendo o fôlego. Agora ali naquela escuridão absoluta a ansiedade a tomava sem pedir licença. Aflita puxava o ar para os pulmões, apesar de toda aquela poeira a sua volta. Tentava fazer os olhos se acostumarem, pois ali estava mais escuro do que no resto do cemitério… Olhava em volta forçando os olhos.
Do lado oposto à parede da fenda por onde entrara havia uma porta de ferro, com uma parte formada por um vitral colorido empoeirado, contornado por grades do mesmo ferro que formavam o resto da porta… Pela camada grossa de poeira naqueles vidros, chegando a escurece-los, aquilo era um mausoléu não utilizado por pelo menos uns vinte anos.
Poderia ter uma chance se permanecesse ali até a loucura de Solfieri passar… Contudo Luana então percebeu que seus joelhos ardiam. Teria se arranhado nos tijolos salientes quando se apertara neles para entrar? Rezava para que fosse apenas impressão, pois sabia que uma gota de sangue seu era suficiente para denunciar sua localização. A aflição aumentou…
…e logo o coração parecia sair pela boca quando sentiu que algo encostava na porta de ferro e vidro grosso, pelo lado de fora… Se distanciou e respirou fundo o mais silenciosa possível, se encostando suavemente em uma das gavetas de mármore, tentando ouvir qualquer ruído sem tirar os olhos do vitral… E foi quando escutou passos atrás de si, pelo lado oposto.
Lua virou-se num susto e mordeu o lábio para não gritar… Arregalou os olhos e o coração agora dava solavancos sem que o pudesse controlar… Pois já imaginava que fosse por ouvir nitidamente seus batimentos descontrolados com sua potente audição ou por sentir seu cheiro, Solfieri a havia finalmente encontrado.
Respirou fundo e logo teve certeza ao ver pelo buraco dos tijolos um conhecido par de olhos ferozes e incandescentes, que a encaravam na penumbra, olhando de fora para dentro do mausoléu pela pequena abertura. Ele chegara na parede oposta de modo quase fantasmagórico. Em um segundo a moça via a sombra nos vidros, no outro já via o par de olhos famintos e ardentes do lado oposto.
Ela engoliu em seco quando viu um dos tijolos caindo, e via agora a fenda por onde entrara crescer em segundos, como se os tijolos fossem blocos de brinquedo. Então, com uma velocidade assustadora uma gélida mão agarrava seu braço e a puxava para fora, sem dar-lhe tempo sequer de se encolher… Olhando-a com olhos ainda mais gélidos, apesar de parecerem brasas…
Já fora do mausoléu, após tentar fugir e não conseguir a garota entrou em pânico momentaneamente, e as lágrimas brotaram fartas. Ela tremia inteira tendo o pulso quente ainda seguro com força por aquela mão fria e rígida…

-Por favor… Tente se controlar… Confiei em você! Vai mesmo me matar…?

Aqueles olhos a encararam mais uma vez friamente, e o vampiro muito rapidamente a dominou pela nuca sem escutar sua súplica, tirando da frente seus cabelos e enterrando os dentes em seu pescoço… Na primeira pontada a moça soltou um gemido sofrido.
Tentou se debater e resistir, mas em instantes entendeu que seria melhor relaxar… Fechou os olhos e tentava acalmar o próprio coração. Contudo agora ainda tremia pela aflição, arfava e sentia dor, porém não mais resistia…A jovem tentou respirar profundamente e resolveu entregar-se… Enquanto o vampiro a sorvia com vontade, sem intenção de parar, ela pensava com ar resignado:

“De nada vai adiantar, sei que não vou conseguir me soltar nem fugir… Se me debater ou resistir apenas sentirei dor, relaxar é o melhor… E… Eu sou uma das raras pessoas que já sabia com antecedência como exatamente iria morrer, porque eu mesma escolhi… Sabia bem que me apaixonei pela morte e um dia estaria em suas gélidas mãos por isto! Sabia como tudo isto era irracional, e que este momento chegaria cedo ou tarde, e ainda assim eu escolhi… Não tenho nada do que me lamentar…”

Estava de fato resignada nos braços da morte apesar do fato que a ansiedade crescia, enquanto ela ia perdendo as forças, no que poderiam ser seus últimos momentos de vida. Então na sua mente naquele instante, persistiram em retornar vividas as imagens e os detalhes daquele estranho sonho de dias atrás novamente…
Via candelabros negros e silhuetas mórbidas, em uma caixa de ossos sentia o forte cheiro de incenso de ópio, que curiosamente reconheceu como tal. Então, ainda lembrando-se do sonho, deu-se conta de que nele tudo aquilo estava num local semelhante a uma capela funerária, iluminada apenas pelas muitas velas.
Uma serenata trágica e sombria tocava no ambiente, embora não pudesse saber de onde vinha a música pois o local parecia deserto… Ao se aproximar do altar repentinamente via um corvo sem olhos pousado onde deveria haver uma imagem sacra ou cruz, próximo ao animal reconheceu escaravelhos que passeavam pela face pálida de alguns querubins de mármore, que agora identificava serem muito semelhantes aos das tumbas do cemitério.
Na mesa do altar jazia uma taça de vinho ao lado de um caixão… Quando finalmente se aproximou a passos receosos viu que a figura ali deitada possuía rosas pelo corpo e estava coberta por um véu. Ao estar mais próxima da taça notou que aquilo não era vinho, e sim sangue…
…E quem ocupava aquele caixão, ocultada parcialmente pelo véu e pelas rosas, era ninguém menos que ela mesma! Neste instante Solfieri aparecia, a puxava para si com os olhos em brasas e as presas à mostra, e então o sonho findou quando Luana acordou…

CONTINUA…

ROCK-SE + MOSH IN PARK simultâneos

Sei que já estou devendo escrever aqui sobre MUITOS eventos de rock e cultura underground nos quais estive nos últimos anos, e talvez futuramente e eu ainda fale deles mesmo que seja relembrando algo já passado há certo tempo. Mas não estive em momentos muito propícios na vida para fazer apropriadamente tais registros como hoje me proponho a este, e confesso estar talvez recentemente “fazendo as pazes” com eventos de rock após um período de afastamento, ao menos presencialmente.

Então, seguirei ao que importa após ter feito esta pequena intro para situar um pouquinho de onde falo e que esta matéria devia ser talvez uma sequência de várias, mas tudo precisa começar de algum ponto. O importante é observar que a cultura underground parece apresentar novo fôlego neste exato momento em locais de RJ onde se acreditava que ela estivesse morta.

Chego finalmente assim ao que me motivou a escrever este relato disfarçado de matéria, e desejo fazer aqui um breve panorama de como foi estar nos dois eventos ocorridos em Rocha Miranda no último domingo – 16/06/2019 – pois ao meu ver é raridade em um só dia dois eventos com bandas de qualidade e no mesmo lugar com palcos simultâneos a metros de distância um do outro. Falarei aqui pelo meu ponto de vista, tal qual minha tentativa de participar de ambos. Terá sido esta tentativa bem sucedida?

Quando cheguei ao Parque e passei pelo Mosh In Park não havia banda no palco, então eu e a amiga que me acompanhava seguimos para o Rock-se, no qual fiquei mais tempo neste dia, uma vez que já havia prometido presença à algumas pessoas que lá estariam, embora acompanhei apenas um dia deste evento que havia iniciado no dia anterior.

Então no Rock-se – edição Ladies in Rock (dia que teve como foco bandas com mulheres nos vocais) foi onde acabei me fixando primeiramente, chegando ao palco bem a tempo para ver iniciar o show da banda D.W.O, a qual eu conhecera em 2015 em outro local e outro momento, digamos “mais metálico”, de sua carreira no qual se dedicava também a covers.

Apreciei rever a banda tantos anos depois com músicas autorais e observei que mudou bastante o estilo mas continua tocando maravilhosamente, agora cantando em português e apresentando um estilo de rock mais eclético e com bastante qualidade. A vocalista ainda continua a mesma e se destaca pelo carisma e bela performance de palco.

Ainda sobre a D.W.O preciso destacar também a performance da baterista, que não fazia parte da banda anteriormente e, além de fazer um bom arranjo sonoro dentro do conjunto, possui um modo marcante de fazer vibrar as baquetas. Ela também faz parte de uma banda a quem muito admiro e tocaria neste evento, tendo se ausentado por certos imprevistos, a PORNOGRAMA – banda da baixada fluminense com temática focada no Empoderamento feminino, a qual eu esperava muito ver neste festival, mas compreendi sua ausência do palco e tive o prazer de conversar um pouco com algumas integrantes que lá estavam presentes e foram prestigiar o evento apesar das dificuldades e do fato de estarem bem longe de casa.

Houve então neste ponto do evento algo atípico que também cabe registrar: um pequeno “sorteio” disfarçado de QUIZZ, onde acabei ganhando uma camisa de outro evento underground da área – provavelmente uma parceria – que acontecerá em breve, o ROCK BY ROCK. A pergunta solicitada foi “quem dissesse primeiro duas bandas femininas com vocal feminino iniciadas pela letra H”. Tentem adivinhar quais eu citei quando fui responder.

Em seguida entrou no palco a banda INTRÉPIDA, a quem eu costumava seguir com frequência nestes últimos anos após ter me sido apresentada por uma amiga, em uma época em que eu estava numa fase onde ouvia apenas bandas das décadas de 70, 80 e 90. Tal banda foi uma das quais me fizeram lembrar que existem outros estilos de rock que também valem a pena ser valorizados e apreciados no presente.

Bom, falando de uma banda que teve este poder de abrir uma mente voltada apenas para o passado já mostra a qualidade que a INTRÉPIDA apresenta em seus shows, contudo devo destacar também a atuação de uma vocalista que coloca sentimento ao cantar sem perder a atitude que o estilo de fato pede, e um instrumental muito bem trabalhado com destaque para letras que falam sobre amor próprio, valorização de afetos e superação de momentos difíceis. Dando facilmente a qualquer um a vontade de cantar.

Com destaque para “Por Favor” que amei cantar ao vivo mais uma vez e “Carta de Despedida”, embalada pelo já famoso “tamborzão” utilizado pela vocalista em um carismático número de percussão na introdução da canção. Uma das letras de uma nova música tocada nesta apresentação falou inclusive da fase de recomeço pela qual a banda está passando, após um hiato que chegou a assustar fãs e seguidores.

Exatamente por tais questões foi gratificante para mim – e creio que para uma das amigas que me acompanhava também, visto que ela me apresentou a banda – ver o retorno da INTRÉPIDA, que retomou fazendo jus à seu nome! Pretendo posteriormente fazer uma matéria exclusivamente sobre esta banda se a mesma desejar ou me permitir.

Após simpáticas fotos com o pessoal da D.W.O e da INTRÉPIDA foi a hora de eu e as amigas que me acompanhavam passarmos pelas quadras de jogos e pistas de skate e de ciclismo do Parque e corrermos para o palco do Mosh In Park​​, que havia tido a data de evento adiada para este mesmo dia, visto que inicialmente estaria marcado para a semana anterior.

Chegamos e encontramos no palco a Banda FROGSLAKE. Eis uma banda que também já acompanho e me conquistou desde outros shows ao longo do ano passado​​ por sua pegada nostálgica e sua atitude “noventista repaginada” de modo nostálgico-cativante. Admiro pessoalmente a proposta de trazer este tipo de trabalho musical para o Rock atual e assim não deixar que ele morra ou se perca no tempo.

A citada banda apresenta um som vibrante e característico cantado em inglês que incentivou a alguns dos presentes na platéia a fazerem o já conhecido “mosh” – outrora também chamado de “roda” ou “roda punk” – frente ao palco durante a apresentação da banda, fazendo jus ao nome do evento e nos transportando de fato no tempo para quando o Rock era mais curtido desta maneira, demonstrando que até o público estava entrando no total clima do som que os embalava.

Além dos detalhes citados acima, a camisa da baixista-vocalista da FROGSLAKE homenageava a década de noventa e a indumentária do guitarrista-vocalista também remetia bastante à estética Grunge – este um dos movimentos mais importantes dentro do rock como um todo, e tipicamente noventista. A sonoridade da banda certamente agrada demais aos fãs daquele estilo – os que curtem fazer “rodas” ou não – sem se tratar em momento algum de uma banda cover.

Já fiz uma matéria sobre esta banda para um outro site como colaboradora, e pretendo em breve atualiza-la para postar neste aqui. Então deixarei para esmiuçar lá como se deve as particularidades da FROGSLAKE. Mas deixo o registro de que fiquei inclusive muito feliz ao conversar com a baixista-vocalista e saber que a citada matéria minha pode ter feito a diferença para esta banda de algum modo.

Seguidamente caminhamos pelo Parque novamente e retornamos ao ROCK-SE, para encontrar no palco uma banda da qual eu já havia ouvido falar muitas vezes mas ainda não havia tido o prazer de ver no palco: ALTOPO Outrora chamada Torre, e tendo tido tanto seu line up quanto seu nome modificados recentemente, a qual me agradou bastante.
Pegamos o show da ALTOPO já no final, mas pude verificar nas três últimas músicas uma qualidade sonora relevante e principalmente uma vocalista com uma voz maravilhosa e certamente um talento notável para o canto.

Ao pegar o setlist – hábito que sempre costumo ter ao ir à shows sempre que as bandas não me impedem, visando ter uma lembrança e exatamente conhecer melhor as músicas das bandas – vi na lista de músicas que perdemos um cover que deve ter sido muito bem executado e pelos títulos as letras autorais pareciam realmente interessantes. Certamente buscarei conhecer melhor a ALTOPO.

Cumprir a missão de estar em dois eventos ao mesmo tempo nos faz perder alguma coisa, quer queira quer não. Vimos então o Rock-se ser encerrado com uma bela foto coletiva com membros de todas as bandas participantes, nos despedimos e partirmos definitivamente para o Mosh In Park onde terminaríamos a noite.

Vários passos depois chegamos ao palco do Mosh In Park onde se apresentava uma banda chamada NEBULOSA, a qual eu também não conhecia até ali, mas me cativou instantaneamente. Achei-a bastante peculiar e criativa até em seu nome que muito me encantou, e me surpreendeu por eu não conhece-la ainda. Me deixou muita curiosidade e o gosto de “quero mais”.

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Fiquei um pouco longe do palco desta vez, mas pude observar que a Nebulosa conta com uma estilosa vocalista, que tinha uma atitude de palco contagiante, cantava em inglês e sua voz me lembrou bandas clássicas que conheci em minha adolescência e ainda aprecio. O estilo da sonoridade me soou um misto de rock alternativo e pós punk, que me agradou muito. Certamente quero buscar mais desta banda…

Encerramos assim o Rock-se e Mosh In Park simultâneos com um gostinho de descobertas de bandas novas para buscar, bons momentos entre amigos e conhecidos em cima e abaixo do palco, e acima de tudo a certeza de que a cultura rock underground ainda tem uma vida longa pela frente se continuarmos a fazer parte dela.

Contudo exatamente para contribuir com que ela aconteça pelas próximas décadas, deixo aqui uma opinião (talvez um feedback) de que ambos os eventos foram maravilhosos, mas certamente se fortaleceriam muito mais se cogitassem a possibilidade de SE UNIREM em um mega evento que de fato entraria para a história do rock underground, ainda que utópico seja meu desejo. Ainda assim deixo aqui este singelo parecer em nome do melhor para a sobrevivência da cultura underground carioca.

***TODAS AS FOTOS INSERIDAS NESTA MATÉRIA FORAM ENCONTRADAS NOS RESPECTIVOS PERFIS DE INSTAGRAM DE BANDAS E EVENTOS AQUI CITADOS…

(Irrelevante talvez, ou nem tanto, termino estas linhas sobre o underground carioca ao som de ‘H.R.’, da saudosa banda VIPER, nos fones de ouvido…)

[CONTOS] Natureza Maligna

A autora do conto a seguir é Shirlei Massapust, graduada em Filosofia pela UFRJ e em Direito pela UNESA, Mestra em Filosofia pelo CEFET/RJ. Publicou alguns trabalhos no livro Voivode: Estudos Sobre os Vampiros, da Carcasse, único livro da editora Pandemonium. Publicou um artigo na Coleção Chás para a filosofia, vol. Camomila, editora PUBL!T. Escreveu a coluna Gato Preto para a antiga revista Carcasse (online), colaborou com alguns textos no site da Rede Vamp.

Designer de capa: ÉRICA FARINAZZO

Que barulho é esse? Lastra correu para as grades da janela, mas só viu a mesma rua e o mesmo céu que sempre estiveram lá. Lastra estava ali desde sempre, trancada no quarto, e por isso se julgava feliz.

A menina cometera o crime de nascer sem pênis num lar fundamentalista ultra-ortodoxo e, assim como todas as outras portadoras da mácula de Eva – com exceção da Virgem Santíssima – era um demônio encarnado. Ela queria sair, mas não para a rua.

O universo onírico não era apenas o único lugar acessível além da porta fechada. Era também o único que importava. Ali ela voaria, correria e faria mil coisas divertidas. Porém o barulho também estava lá. Um ronronar diferente… Cachoeira descendo pelas escadas… Lastra acordou.

Ao consultar a fechadura deparou-se com outra retina barrando-lhe a vista. Sem se incomodar com o brilho vazio daquele olhar, deu de ombros e voltou para a cama. Continuou insone por causa das batidas na porta…

Acaso aquele olho curioso não sabia que ela não tinha a chave? O que diabos alguém haveria de querer com o monstro do armário? Num dado momento o estranho desistiu de bater e conseguiu derrubar a porta.

Lastra pulou da cama e viu que estava sangrando. A hemorragia lhe sujara pernas, roupas e até um ponto do lençol. Era a quinta vez que essa coisa estranha acontecia — durava quatro ou cinco dias, cerca de uma vez por mês. — Provavelmente tinha vermes comendo suas entranhas. Certo? Tanto faz. Pouco importa.

Ela driblou o estranho e tropeçou no cadáver de seu pai, estendido sobre um plástico no chão da sala. Não havia mais quem lhe batesse ou trabalhasse para sacia-lhe a fome.
Pensou em voar ou fazer alguma das coisas que praticara nos sonhos, mas só conseguiu correr. Por que seus poderes de demônio não funcionam nesse mundo?

A menina andou na rua pela primeira vez. Quis abordar outras crianças. As garotas correram gritando e os moleques lhe atiraram pedras. Lastra percebeu que não era como eles – nem mesmo como as meninas. – Entrou numa loja de calçados onde contemplou um grande espelho, quase da sua altura. Recuou diante da imagem que nunca vira…

A camisola transparente, suja de sangue, formava um conjunto tétrico com sua lividez anêmica, cabelos desgrenhados e unhas por fazer. Ela parecia muito mais com o estranho que invadiu sua casa do que com outros seres humanos… Deviam ser da mesma espécie… Talvez pudesse lhe ajudar, afinal! Ela retrocedeu em seus passos, até encontrá-lo em casa, tentando arrastar o cadáver.

— Oi moço.
O vampiro falou nervosamente:
— Garotinha, por que você voltou? Seu pai morreu.
— Tudo bem, ele era humano.
— Como?
— Ele não era demônio como nós. Era bom e me batia.

O estranho afagou a cabeça de Lastra com ternura. De princípio ele pensou na menina apenas como sobremesa, mas logo viu que não podia mais continuar com aquilo.

Durval sabia que deixar alguém fugir ou viver seria um erro fatal… Que assim seja! O vampiro ocultou o cadáver, deixou a menina na porta dum abrigo de menores e se preparou para encarar o seu próprio fim.